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Estevam Dedalus
Aquilo que podemos comer variará culturalmente. Assim é que os judeus fazem objeção à carne de porco, enquanto nós brasileiros achamos incivilizado se alimentar de cachorros e de baratas. Os franceses são conhecidos por comerem caramujos, os cambojianos tarântulas fritas e os marroquinos hambúrguer de camelo.
É comum que em discussões desse tipo lembremos que os indianos tratam as vacas como animais sagrados, que não podem servir de alimento. O que parece estranho aos nossos olhos. Muitas pessoas ficam intrigadas com a importância da vaca na Índia, com tudo que envolve a sua sacralidade e se perguntam como e por que as vacas conseguiram tal status? Seria um fenômeno que se autoexplica por fatores religiosos, imateriais? Ou existiria uma resposta mais convincente ligada à vida material daquela sociedade?
Um dos grandes especialistas no tema é o antropólogo Marvin Harris, que publicou na década 1970 o livro Vacas, Porcos e Bruxas: os Enigmas da Cultura. Ele acredita que a sacralização das vacas na Índia tem como base questões econômicas, mas reconhece que os hindus veneram esses animais como símbolo da vida em seu estado mais sagrado. Matar uma vaca é uma profanação indesejável. Os hindus levam tão a sério a sacralidade das vacas, que historicamente isso tem produzido ataques contra muçulmanos que não se importam em comê-las no país — o mesmo não podem dizer sobre os porcos.
As coisas saíram estupidamente do controle em 1917, durante uma revolta hindu contra o abate de vacas por muçulmanos. No total, 170 aldeias muçulmanas foram destruídas e 30 pessoas mortas. Esse tipo de incidente chamou a atenção de Gandhi, que se tornaria um defensor das vacas. Em 1966, cerca de 120 mil pessoas saíram às ruas na Índia para protestar a favor do fim do abate desses animais.
Para além das questões sagradas, as vacas desempenha um papel fundamental na agricultura familiar indiana. Os principais meios de tração do arado é o boi e o búfalo: o primeiro era empregado em áreas secas do país, e o segundo, em terrenos encharcados. Esses animais puxam as carroças. Perdê-los por doença ou morte pode significar a mais desoladora miséria.
Não existem bois sem que existam também vacas. A função primordial das vacas indianas é gerar zebus machos. Curiosamente, as vacas indianas dão pouco leite, são magras, muitas vezes subnutridas, e sua exploração não se resume à geração de bois para atividades agrícolas. O esterco das vacas é também abundantemente empregado como fertilizante e como fonte de energia e combustível para cozinhar alimentos. Harris afirma que a chama produzida pela queima do estrume tem a virtude de ser duradoura e límpida, o que seria ideal para as mulheres indianas que, além de preparar a comida, ao mesmo tempo cuidam dos filhos e trabalham na lavoura. Tradicionalmente, a manteiga ghee é feita utilizando esse tipo de fogo.
O cocô da vaca é economicamente tão importante que, em algumas aldeias, as crianças são designadas para acompanhar as vacas durante o dia a fim de coletá-lo. Nas cidades, são os membros das castas inferiores que recolhem o estrume. O cocô pode ser vendido para outras pessoas e muitas vezes acaba transformado numa espécie de pasta aplicada para assoalhar o piso das casas.
As vacas que conseguem produzir leite são fontes de renda extra para as famílias. De modo geral, as vacas são exploradas ao extremo. Quando morrem, suas peles são usadas para fazer couro. Algo curioso é o fato das vacas não disputarem alimento com os humanos. Elas não comem ração, nem alimentos produzidos na lavoura. A alimentação das vacas indianas é à base de lixo e de capim encontrados nas cidades. As vacas atuam como “limpadoras de rua”. Isso nos ajuda a entender por que, em geral, esses animais são magros.
Harris observou que a Índia sofre com problemas cíclicos de falta de chuva, o que costuma acarretar em fome. Apesar das dificuldades nesses períodos de seca, os hindus dificilmente matam as suas vacas. Harris acredita que há um argumento mais pragmático para entender essa questão, que não devemos reduzi-la ao tabu religioso. Matar vacas é o mesmo que decretar a desgraça da própria família, porque sem esses animais é impossível arar a terra. É mais nocivo à segurança alimentar de numerosa população matar vacas no período de seca do que abatê-las para aplacar a fome. A sacralidade das vacas teria como base o dilema de saciar uma necessidade momentânea ou garantir as necessidades materiais de médio e longo prazo. O tabu se assenta, em última instância, a um cálculo racional.
É interessante observar como fatores econômicos podem determinar concepções culturais e religiosas, que aparentemente seriam desconexas. Os nossos comportamentos práticos tendem a ser mais efetivos quando estão associados a crenças socialmente aceitas e psicologicamente compulsivas.
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REAÇÃO - 13/02/2026