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Estevam Dedalus é sociólogo, doutor em Ciências Sociais, professor da UEPB, músico e compositor. [email protected]

Palavras e cores

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publicado em 28/01/2026 ás 17h48
atualizado em 28/01/2026 ás 17h49

Estevam Dedalus

Há textos em que as palavras não se entregam facilmente ao leitor, precisando assim de serem sitiadas grão a grão, com desvelo e paciência monástica. A experiência demonstra que tentar dominar essas palavras resulta quase sempre em fracasso. Como na visão mística, sabemos o que as letras querem dizer e, por mais contraditório que possa aparentar ao nosso entendimento, é impossível comunicar o significado em linguagem racional. Parece que certos escritos são mais polissêmicos que outros, ao estimular níveis até então desconhecidos ou ocultos da percepção, transformando radicalmente as relações hermenêuticas entre leitores e obra de arte.

Algo semelhante acontece quando investigamos termos com um alto nível de abstração. Cheguei, no passado, a acreditar que não saberia sequer uma definição satisfatória para os nomes das cores. Se dissesse, por exemplo, que o vermelho é um tipo de percepção visual provocada por ondas eletromagnéticas que incidem sobre células da retina responsáveis por enviar informações ao cérebro, e que essas ondas têm comprimento aproximado de 625 a 740 nm e frequência entre 480 e 405 THz, seria como se nada de verdadeiramente esclarecedor fosse acrescentado ao assunto. Fica evidente que se trata de uma definição científica, logicamente, inferida a partir de determinados dados sensíveis e que, de fato, não mostra ter em si realidade superior aos meus sentidos.

Confesso ignorar em que grau se pode afirmar, com convicção, ser o conceito físico mais real que os versos poéticos que dizem que “vermelho é a cor do amor”. Sei, entretanto, que quando percebo essa cor imediatamente a reconheço. Ela se apresenta ao meu espírito num rompante, nítida. Mesmo se não houvesse uma palavra que a nomeasse, saberia distingui-la de outro matiz de cor. Qualquer pessoa que não sofra de nenhuma espécie de doença que afete a percepção visual entenderá o que digo.

O filósofo britânico G. E. Moore tinha uma opinião sobre o Bem bastante próxima dessa ideia. Dizia que não poderíamos defini-lo, somente reconhecê-lo. Acho que isso se aplica também ao amor e a outros sentimentos humanos. As palavras, apesar de indispensáveis ao pensamento, à imaginação e à sociabilidade, são incapazes de exaurir semanticamente esses estados emocionais; cabe à experiência individual revelar o que sejam.

Tudo isso é para dizer que, vistas assim, as sensações vividas por pessoas diferentes seriam apenas suscetíveis a imagens vagas e comparações imprecisas, na medida em que não conseguiríamos relatar plenamente o que vivemos. Por mais social que seja o homem, estará inexoravelmente sujeito a experiências únicas e indiscerníveis.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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