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Duas fortes paixões coexistem na personalidade de João Batista de Brito. O cinema e a literatura. Desde que o conheci, nos idos de 80 do século passado, tenho acompanhado seus textos regularmente publicados. Tivemos, eu, ele e o saudoso Wellington Pereira, uma página no jornal O Norte e muitos momentos no suplemento literário, hoje revista, Correio das Artes. Fazendo a crítica cinematográfica como uma constante de seu talento analítico, também se dedicava à leitura minuciosa e exegética do texto poético, aproximando o rigor do ensaio acadêmico da pauta mais aberta e mais flexível do jornalismo cultural.
O tempo passou, e João Batista de Brito, decerto atendendo a vocativos íntimos do escritor criativo que nele habitava, enveredou pela ficção, valendo-se de sua experiência sensível e intelectual com a sétima arte, nos dando um pequeno e delicioso livro, intitulado Um beijo é só um beijo: Minicontos para cinéfilos (2001). Agora, ampliando a faixa de seus investimentos expressivos, vem de publicar Pão com sabor de poesia: crônicas e (talvez) argumentos (João Pessoa: Selinho Editorial, 2025).
Dividido em duas seções: a dos textos com ares de crônica e a dos argumentos, que oscila entre os relatos fictícios e as narrativas reais. Naqueles, o à vontade no ato de narrar ou descrever, sempre calcado nos ingredientes da memória ou da “recordação”; nestes, a possibilidade, pelo menos segundo o autor, de fundir o narrado ou descrito com a sintaxe específica do argumento cinematográfico. Dito de outra forma: a literatura e o cinema andando de mãos dadas numa escrita prosaica, se pensarmos na utilidade alimentar do “pão”, porém, numa escrita de cariz estético, se percebermos seu sabor de poesia.
As crônicas, em geral, prefiguram a presença da memória. Nos fatos, na paisagem, nos personagens, nos motivos que estratificam o seu andamento, o olhar se volta para o passado, e o eu narrador como que enuncia os passos principais de sua trajetória humana. O menino que foi, o adolescente e suas primeiras descobertas, a família, a cidade, o bairro, os amigos, as leituras, os filmes, os bares, as alegrias e as tristezas. Enfim, tudo que fermenta a formação de uma subjetividade, de uma mitografia singular, de um mundo real e imaginário que se dissolveu no tempo, é evocado, aqui, na fluidez e na ambivalência da voz do cronista.
A princípio, Santa Rita, seu locus amoenus. Em seguida João Pessoa, e, em João Pessoa, o Bairro de Jaguaribe, principalmente o Bairro de Jaguaribe enquanto microcosmo espacial e especial de certas vivências decisivas que culminaram na figura do homem e do escritor. Com seus hábitos, preferências, atitudes, sonhos, carências e saberes. Vejo, sobretudo, em certas crônicas, fragmentos de memória, quase biografemas à maneira barthesiana, enxertos líricos que convertem o vivido num tecido de pura “recordação”, como se fora um poema que, por força do arranjo das palavras, possui o poder de trazer o mundo de volta ao coração, na beleza do ritmo, no compasso da ideia e no elemento simbólico da imagem.
Se o homem, na substância de seu temperamento e na elaboração de seu caráter, como que se entremostra em crônicas, a exemplo de “Santa Rita em mim”, “Meu primeiro Jaguaribe”, “Pão com sabor de poesia” e “Meu pai”, entre outras, o escritor, por sua vez, parece se desenhar em crônicas, como “Um professor”, “Livros enterrados”, “Um aluno”, Eu e Shakespeare” e “Leitor”, nas quais o talento e a vocação, enquanto categorias essenciais ao processo criativo, se mesclam, ao mesmo tempo em que identificam uma subjetividade.
Os relatos da segunda parte, a seu turno, revelam a técnica do contador de histórias. Algumas, quase “causos”, pelo inusitado e atrativo das ocorrências. Destaco, entre essas peças, “Uma noite em Cabíria”, “Quartos separados”, “O dia em que comemos Bráulio”, “Ora, Eça…”, “Família felizes” e “Sessão da tarde”. Fugindo sempre ao apelo da memória e ao tom mais pessoal característico da primeira parte, tais escritos, ou argumentos, como sugere o autor, mantêm, no entanto, a mesma pegada irônica, o mesmo senso de humor, a mesma limpidez da frase que alicerçam a linguagem do escritor.
João Batista de Brito, com este Pão com sabor de poesia, revela, assim, uma das melhores facetas de seu contínuo labor com as palavras. Diria que o leitor obstinado e rigoroso do texto poético, o hermeneuta insinuante do texto fílmico, o teórico do signo verbal e visual, abre, com esse viés da crônica e do conto, as portas da poeticidade, naquilo que ela contém de realidade e fantasia, de verdade e beleza.
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"PRÓXIMOS DIAS" - 23/01/2026