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Educador físico, psicólogo e dvogado. Especialista em Criminologia e Psicologia Criminal Investigativa. Ex-agente Especial da Polícia Federal Brasileira, sócio da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas e do Instituto Brasileiro de Justiça e Cidadania. Autor de livros sobre drogas.

Meu filho está usando drogas, o que devo fazer?

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publicado em 27/01/2026 ás 07h00
atualizado em 26/01/2026 ás 18h22

 

Esta dúvida ou constatação dos pais e ou outros familiares, infelizmente tem sido cada vez mais frequente nos últimos anos, haja vista a popularização e disseminação das drogas, inclusive às ilícitas.

É natural que a família, especialmente aqueles membros que estão mais próximos do provável usuário ou dependente, fique totalmente “perdida” acerca de como agir, ao tomar conhecimento de tal comportamento do ente querido.

Testemunho esta aflição na minha rotina como profissional da psicologia, seja na clínica ou nas palestras e debates com grupos de pais e educadores em geral, sobre a temática em discussão.

Em primeiro lugar, é fundamental afirmar que é comum os jovens passarem por mudanças comportamentais no período compreendido entre a adolescência e início da idade adulta, pois esta é uma fase de hormônios elevados e de autoafirmação desse público. Portanto, comportamentos como: impulsividade elevada, busca de desafios e de novas experiências, a preferência em ficar mais tempo com outros adolescentes do que com os familiares, o crescimento da agressividade etc, são atitudes comuns a esta faixa etária, e assim sendo, não se deve atribuir, de imediato, ao uso indevido de drogas.

As pesquisas mostram que a maioria dos seres humanos da sociedade moderna, em algum momento das suas vidas, especialmente na juventude, vai arriscar contrariar algumas regras sociais, inclusive fazendo uso indevido de certas substâncias psicoativas. Mas, repito esta possível experiência momentânea e muitas vezes esporádica, não significa “o fim do mundo”, pois, geralmente, tal comportamento é naturalmente abandonado com o advento da maturidade. Contudo, isso não quer dizer que os pais devam ficar “deitados em berço esplêndido”, e esperarem que apenas o tempo resolva, pois os riscos destes usuários enveredarem para o uso prejudicial e até mesmo a dependência de drogas existem.

Assim, caso o filho ou outro ente querido, passe a apresentar, sem motivo justificado, uma mudança brusca e significativa no comportamento, com o acúmulo de atitudes do tipo: agressividade, troca do dia pela noite, mudança do grupo de amigos, segredos exagerados, mentiras frequentes, abandono do trabalho, da escola etc., os pais e demais familiares devem se esforçar para aproximarem-se mais ainda desse jovem, tentando estabelecer diálogos francos, abertos e sinceros, sem acusações ou julgamentos precipitados e ou terrorismos, visando saber o que verdadeiramente está acontecendo, pois poderá ser que tal comportamento esteja sendo motivado ou impulsionado por consumo de drogas. Costumo dizer que pais e mães são naturalmente os melhores psicólogos para os seus filhos, basta que saibam usar suas experiências educativas e dediquem amor às suas crias. Como já descrito, o diálogo franco, sincero e sem julgamentos é o melhor remédio na educação sobre drogas. Por vezes esta estratégia é um “medicamento” cujos efeitos esperados são relativamente demorados, mas costumam ser muito eficientes e duradouros. A abordagem deve ser empática e no momento certo, nunca quando o possível usuário estiver sob os efeitos de substâncias. É importante também evitar confrontos diretos, isso pode levar o jovem a se retrair mais ainda. Oferecer apoio, estimular a pessoa a falar sobre seus sentimentos e preocupações de forma aberta facilita a conversa. Não se deve esquecer que o diálogo é uma via de mão dupla: fala-se e ouve-se, é uma troca não uma batalha onde só um lado tem direito a se expressar.

O diálogo quando bem conduzido ajuda a criar um espaço seguro para que a usuário “se abra” e compartilhe suas dificuldades, anseios e dúvidas. Nesta empreitada educativa, além da família é importante contar com a parceria de amigos do usuário, que não estejam envolvidos com drogas, bem como de lideranças religiosas, esportivas etc, que o usuário respeita e tem empatia. As terapias psicológicas, individuais e ou de grupos, com profissionais especializados, bem como a participação em entidades de autoajuda como: os Alcoólicos Anônimos – AA, Narcóticos Anônimos – NA, Amor exigente e outros, também são ferramentas que ajudam muito nessa missão, pois tanto os grupos de autoajuda quanto as terapias psicológicas proporcionam um espaço e ou ambiente de compreensão e apoio mútuo.

Quando a família não está conseguindo sozinha resolver o problema, esta deve buscar ajuda o quanto antes. As pesquisas demonstram que esta busca de apoio muitas vezes só acontece após anos da instalação do problema, e quanto maior o tempo de consumo indevido mais difícil será o tratamento. Devo dizer que, assim como o câncer a dependência química é uma doença grave, e desta forma, o quanto antes for cuidada maiores serão as chances de cura. Tal demora comumente acontece porque culturalmente, quando a família se depara com um problema de drogadição dentro de casa, guarda segredo, pois é acometida de um misto de preocupação, raiva, remorso, medo, vergonha e também culpa. E isso é natural uma vez que, pais e mães, normalmente idealizam para suas crias o modelo de cidadão ou cidadã que querem e almejam, e, naturalmente ao vê-las enveredando por caminhos perigosos e diferentes daqueles projetados inevitavelmente são acometidos dos mais decepcionantes e perversos sentimentos, inclusive de auto culpabilidade, indagando por vezes, onde foi que erraram.

É importante frisar que até hoje, a humanidade não conhece a fórmula infalível da boa educação, apesar de sermos sabedores, que uma família bem estruturada, que cultiva o diálogo franco e transparente entre seus membros, com valores morais, afetividade e respeito mútuo, geralmente é sempre um porto bem mais seguro; mesmo assim, não vai aí nenhuma dosagem de certeza de que tudo dará sempre certo, pois mesmo estes filhos e filhas, oriundos de famílias alicerçadas nos princípios já citados, podem enveredar de forma esporádica ou rotineira por comportamentos reprováveis socialmente e até mesmo ilegais.

Portanto, para que se possa construir uma sociedade mais humana, sadia e consequentemente menos escrava do uso indevido e prejudicial de drogas, o papel da família é indispensável. Esta não pode abrir mão de pilares como: amor e limites na educação dos seus filhos, pois como bem diz o sábio ditado popular: “se educarmos as nossas crianças não haverá homens a corrigir”.

Pai e mãe, nunca desista do seu filho!

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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