José Nunes
No Natal que passou não enviei cartão de boas-festas para ninguém. Como o tempo mudou ou mudamos nós. A troca de felicitações natalinas nesse período era um momento esperado pelas pessoas mais próximas, nossos familiares.
Era a ocasião de reencontrar amigos, familiares e de lembrar alguém distante, renovar os augúrios de paz a partir das festas celebradas.
Não lembro de quando recebi o último cartão de Natal. Não faz tanto tempo. Ou faz tempo? Tem um cartão recebido em dezembro de 1981 que não esqueço. Daí em diante, no Natal sempre estivemos juntos. Já éramos três no primeiro ano. Apalpava a barriga da mãe para sentir Angélica como a mensagem de Natal.
O primeiro e melhor cartão de Natal de nossas vidas.
Nos tempos futuros, outros cartões natalinos eu enviava para as pessoas íntimas, de perto ou morando distantes. Recebia a retribuição, mas nunca tiveram tanta importância como naquele Natal de 1981.
Optando por mensagens eletrônicas, as vezes superficiais e sem a essência do sentido místico emanado das festas que celebramos, perdemos o prazer de manusear a carta que chegava com os dizeres, às vezes simples, mas cheios de sentido e emoção.
No ano que passou recebi um cartão de Natal de um amigo e sua esposa com frases soltas, ao modo das modinhas do nosso folclore.
No Natal do ano passado senti emoção semelhante à antigamente, devido ao cartão dos amigos. Lendo a mensagem do casal residente em lugar distante, foi como se estivéssemos juntos. Isso porque estamos unidos por laços afetivos. Essa amizade que as artes proporcionam. Que a Poesia alimenta.
Como a Poesia cabe em todos os momentos, se deslocando nos planos visuais e sensitivos, ainda mais em período das comemorações do nascimento de Jesus, que carrega uma profunda simbologia mística e constrói um clima de regozijo entre as pessoas. Me alegrou receber o poema no período de festas natalinas.
Respondi ao cartão do amigo, como também às mensagens que entupiram a memória do celular.
Gostava quando recebíamos cartão imprenso com mensagens. Igual contentamento quando preparava e postava nos Correios os envelopes com a mensagens, escritos com a caligrafia torta.
Lembro de quando Dom Marcelo Carvalheira nos enviava, todos os anos, seus cartões de Natal. O desenho era feito por sua irmã Miriam, com mensagens de louvação ao tempo que estávamos vivendo.
Eram pinturas leves, com cores suaves. Acompanhava uma mensagem, geralmente retirada do Livro Sagrado, em referência à data do nascimento de Jesus.
A pintura dos cartões enviados todos finais de ano carregava uma bonita mensagem que reproduzia a nova vida, na perspectiva bíblica. Sempre com a imagem de uma cegonha conduzindo no bico um ramo de oliveira. Uma referência a passagem bíblica do dilúvio.
As palavras do arcebispo ajudavam a desvanecer o pessimismo e afastar as nuvens da alma. Ao final de cada ano, esperávamos com redobrada expectativa a chegada das mensagens dele.
Palavras que apontavam caminhos dentro da natureza de cada pessoa, porque profundas no sentido de penetrar na alma humana. Tinham raízes na sua humanidade cristã e convivência com a mística dos padres do deserto.
Confesso que certa vez copiei um desses cartões de Dom Marcelo, um belo cartão, e enviei para o casal amigo residente em outra cidade, pensando emocionar a ambos. Deu certo. Os dois amigos falaram da emoção ao olhar a pintura e a mensagem do arcebispo. Lembramos do tempo quando participávamos das missas na capela particular de Dom Marcelo, em sua residência episcopal.
Cada pessoa tem um modo de transmitir mensagens natalinas. As de antes tinham resultados diferentes. Qualquer perturbação seria amenizada, tendo em mãos estes cartões.
A emoção nesses momentos de final de ano ocupa espaço enorme no adulto que continuo a ser, emotivo e que se sensibiliza ao observar um velho cartão de Natal.
Uma noite acordei pela madrugada, lembrei do cartão recebido no final deste ano. Recordei das conversas com o religioso, um místico da ternura sempre de braços abertos para a acolhida. Como foi bom novamente manusear os presentes ofertados por Dom Marcelo.
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