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José Nunes da Costa nasceu em 17 de março de 1954, em Serraria-PB, filho de José Pedro da Costa e Angélica Nunes da Costa. Diácono, jornalista, cronista, poeta e romancista, integra a Academia Paraibana de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, a União Brasileira de Escritores-Paraíba e a Associação Paraibana de Imprensa. Tem vários livros publicados. Escreveu biografias de personalidades políticas, culturais e religiosas da Paraíba.

Antes que esqueçam   

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publicado em 13/01/2026 ás 20h20
    
José Nunes
Quando a Igreja na Paraíba soluçava fatigada e envelhecida nas práticas elementares de evangelização, vivendo no silêncio causticante de regras atrofiadas sob o sol da esperança encoberto por nuvens escuras, surgiram entre nós dois padres com o “cheiro das ovelhas e pés no chão”. Vieram como mensageiros da esperança e de sonhos como foram os profetas da Antiga Aliança.
No rastro do Concílio Vaticano II, que acabava de ser aprovado pelo corpo pensante da Igreja de todo o universo, a Paraíba recebeu Dom José Maria Pires como seu arcebispo e como auxiliar, Dom Marcelo Pinto Carvalheira. Ambos trouxeram novas feições para a Igreja em nossa terra, chegaram com mais luzes ao deserto escuro das práticas espirituais, dando ânimo ao corpo eclesial envelhecido para os gestos das mãos estendidas às famílias necessitadas de afeto, agasalho e pão.
Os ventos das mudanças propostas pelo Vaticano II chegaram até a Paraíba e, com os dois bispos – um arcebispo (1966) e um bispo-auxiliar (1976) -, espalharam-se a todos os recantos. Ambos trouxeram o olhar misericordioso de Cristo para perto dos pobres, olharam para o povo excluído e espezinhado pelo secular latifúndio, abriram a consciência das pessoas, suscitaram reformas de base na tentativa de harmonizar as mudanças sociais, políticas e econômicas.
Assimilando o conteúdo do Pacto das Catacumbas, ambos logo colocaram em prática as recomendações e visualizaram alguns gestos pelos recantos da Paraíba, mesmo sendo repelidos por leigos e integrantes do clero tradicional, que olhavam de soslaio para o que estes propunham.
Depois deles, as celebrações ganharam simplicidade e passaram a ter maior participação de fiéis. O clero se despojou das vestes engalanadas e dos ritos pomposos. Chegou às periferias para o abraço fraterno e perfumado. Lugares simples e até a sombra de árvores se transformaram em púlpitos para celebrar a Eucaristia.
Quando lembramos os 60 anos da chegada e do início dos trabalhos pastorais de Dom José e dos 50 anos do bispo Dom Marcelo (depois arcebispo), imaginamos que deverão ser comemorados pelos paraibanos, porque os gestos de ambos continuam no coração de muitos fiéis. Certamente as datas serão lembradas pela Igreja com uma vasta programação, constando de debates acerca de suas atuações pastorais e diversos atos celebrativos, pois afinal, suponho, são justas e eles merecedores.
De minha parte, pretendo ofertar uma contribuição destacando os períodos de trabalho pastoral de ambos, visando perpetuar na História da Igreja e da Paraíba. Sobre Dom José temos prevista a publicação do livro-biografia – “Um Profeta na Igreja dos Pobres”. Igualmente, preparamos a segunda edição do livro “O Bispo que Amava os Pobres”, sobre atuação profética e mística de Dom Marcelo, que espero lançar na data oportuna.
Estes dois padres, que vieram de outras terras para morar entre nós, tornaram-se pastores com os pés no chão, preferiram o cajado, símbolo do pastor, e não o báculo que simboliza a nobreza. Visualizaram e mantiveram as feições proféticas do Concílio Vaticano II. Servos despojados de pompas, com as marcas dos grampos nas mãos e nos pés, e no peito carregando as dores de Cristo, estiveram no meio do povo.
Nos dias tempestuosos, de ondas indomadas com espuma venenosa espalhadas pelos quatro cantos de nosso país, que enlameava e sufocava as praças ou quando o sangue dos trabalhadores umedecia a terra, José e Marcelo estiveram ao lado dos espoliados, impuseram a bandeira da liberdade, da não violência.
Tentaram, a partir da mística de Jesus, e até certo ponto conseguiram, trazer harmonia à vida das pessoas. Pessoas que viviam, em amontoado de dor e sofrimento, à margem estreita entre os excluídos. Com eles, para muitos, a Palavra de Deus criou possibilidades humanas e conquistaram um arabesco espiritual, inclusive, diversos camponeses e famílias sem esperança se adornaram de luzes.
Partiram, levando consigo a poeira das terras paraibanas, e deixaram conosco a saudade, junto com a suavidade dos afetos. As lições de ternura e de pulso firme de ambos continuam como legado dos ensinamentos de Cristo.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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