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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: [email protected]

Compulsando dicionários

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publicado em 25/02/2026 ás 07h00
atualizado em 25/02/2026 ás 07h59

Hildeberto Barbosa Filho

Na minha biblioteca, certas estantes são como países. Aqui e ali decido visitar sua geografia e usufruir de suas ofertas inesperadas.

Tirei a manhã de domingo passado para visitar o país dos dicionários. Sempre amei os dicionários, suas inúmeras informações, seus múltiplos conhecimentos, sua incalculável sabedoria. Um dicionário me parece um mundo mágico, não importa a variedade de seus assuntos e temas. Aprecio, sobretudo, aqueles cuja matéria concerne aos tópicos mais surpreendentes. Nesses ou por esses, faço viagens imaginárias tocado pelo afã de deparar, em meio a seus diversos verbetes, o elemento inusitado, a coisa única, o dado implacável que, mesmo em condensar a surpresa da revelação, tende a deslocar o fluxo do pensamento.

Consulto, de passagem, o dicionário de Nelson Oliver, Todos os nomes do mundo, com mais de seis mil verbetes, tratando da origem, do significado e das variantes que os nominativos podem apresentar.

No “V”, me interessa “Vera”, oriundo do latim verus, vera, verum, literalmente significando verdadeira, sincera, franca. Aprendo mais: Na Inglaterra, segundo seus ensinamentos, o nome tornou-se “popular durante o século XX, com as novelas Moths (1860) e A Cigarette-Maker`s Romance (1890)”. Em meio às personalidades famosas, o dicionário refere, entre outras, Vera Fisher, Vera Gimenez, Vera Janacópulos, cantora, e Vera Moukhina, escultora russa.

Consultando o “C”, em “Carolina”, descubro que se trata do diminutivo de Carla, “por influência do espanhol e∕ou do italiano Carolina. Fala-se também na variante inglesa, “Caroline”, introduzida na Inglaterra pela rainha Caroline of Brandenburg-Anspach, “tornando-se um dos nomes mais populares naquele país por volta do séc. XVIII”.

Mariana, Hildeberto, Lamartine, Graça, José, Rosário, Claudete, Ana Paula, Aparecida, Lara, Ivonete, todos de casa, e tantos outros, verifiquei, completamente envolvido pelo prazer do espanto e pela novidade das descobertas.

No Dicionário dos Marginais, de Ariel Tacla, com prefácio de Carlos Lacerda, descubro, por exemplo, que “Quarentena” significa “Tranca no cubículo como castigo ou por falta praticada”, e não simplesmente o período de 14 dias de isolamento de quem é vítima da covid – 19. Que “Rato” é o investigador de polícia ou o ladrão que furta hotéis; que “Sabugo” é bajulador, servil, e que “Vaca” é mulher namoradeira ou vinte e cinco cruzeiros antigos.

Já em Tudo o que você sempre quis perguntar sobre sexo, humor e política e nunca teve coragem para saber, dicionário escrito e organizado por Fausto Wolff, logo na letra “A”, procuro “Amor”, e eis o que o autor registra: “Se você não sabe o que é, talvez não valha a pena continuar lendo este livro. De qualquer modo, dê uma olhada no verbete EROTISMO”. Na letra “C”, encontro o verbete “Cu”, assim explicitado: “É cu mesmo. Não confundir com Coo Stark, modelo que foi namorada do príncipe Andrew, da Inglaterra. Stark em alemão quer dizer forte”. No “M”, temos “Masturbação” como “Prática esotérico-patafísica responsável pelo crescimento de pelos nas mãos. (Ver Punheta)”. E por aí vai, misturando sólidas informações com ironia, destempero e sarcasmo. Gosto deste dicionário. Ele me faz rir e me retira do tédio!

“Comedor de formiga” é a expressão que serve de alcunha para os santistas (filhos de Santos), empregada pelos paulistanos ou filhos da capital do estado de São Paulo, conforme verbete do Dicionário da terra e da gente do Brasil, de Bernadino José de Souza, em elegante edição da Itatiaia. O achado foi colhido, à p. 23 do livro Meu samburá, de Cornélio Pires. “Guarda-peito” é o mesmo que capanga, e “Toró” designa a chuva miúda, e não a tromba d`água, principalmente nos municípios da Serra do Mar, no estado do Rio de Janeiro. A prova se encontra em registro de A. Taunay, extraído de seu Léxico de Lacunas.

Poderia dar outros exemplos de outros dicionários, mas fico por aqui. Quem sabe, um dia volte ao assunto e traga achegas curiosas de demonologia, verminose, patifaria, lugares ocultos, cidades mortas, assassinatos, magia, poesia galáctica, romances perdidos, bibliotecas queimadas, regiões esquecidas, prataria chinesa, cavalos do Alabama, mulheres suicidas, bordéis famosos, tipologia das mortes etc. etc. etc.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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