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A classificação de atos maus e dignos de elogio está presente em organizações sociais modernas e pré-modernas. Em sociedades “primitivas” já se admitia que certos atos fossem capazes de produzir prosperidade individual e coletiva, enquanto outros nos empurrariam à ruína. Tais crenças são apenas em parte sustentas por bases racionais. A superstição teria papel importante, porque a moralidade “primitiva” origina-se no tabu. A ideia de que objetos estão cheio de mana (substância mágica) e que aos tocarmos morremos, ou que alimentos são puros e impuros faz parte de uma mentalidade cuja superstição é uma marca.
O filósofo e matemático inglês, Bertrand Russell, argumentava que não existe intenção de justiça, tal como a entendemos, nos castigos provenientes das violações de tabus. A ideia é reforçada com uma história sobre a Arca da Nova Aliança – símbolo da relação entre Deus e os judeus – descrita no livro bíblico de Samuel. De acordo com a tradição judaica, a Arca só poderia ser levada por quatro homens que transpassavam, com varas de acácia, duas argolas laterais de ouro, possibilitando assim os apoios necessários ao transporte. Não devia ser carregada numa carroça nem tocada por ninguém além dos sacerdotes levitas.
Ato contínuo: certo dia, quando Davi transportava a Arca numa carroça e ela começou a tropicar à eira de Quindom, Uzá, que não era sacerdote, tentou evitar a queda segurando-a com as mãos. O resultado foi um ataque divino fulminante: o incauto judeu tombaria morto pela desobediência, apesar de sua nobre intenção.
É bastante comum que tabus sejam expressos na forma a impedir a endogamia. Na Inglaterra, até meados do século passado, era proibido que um homem viúvo casasse com sua cunhada. A igreja Ortodoxa Grega é, até hoje, contra casamentos realizados entre padrinhos ou primos de 1º grau. Em todos esses exemplos não prevalecem argumentos racionais que apontem supostos prejuízos à sociedade, caso as regras sejam desrespeitadas. Elas se sustentam pela força de antigos tabus.
O poder que o tabu do incesto exerce sobre nossas consciências e sentimentos é muito ilustrativo. Indivíduos frequentemente inescrupulosos tenderão a vê-lo com grande rejeição. Moll Flanders, personagem do romance homônimo de Daniel Defoe, não era o tipo de pessoa que se importava com os crimes que cometia, mas não foi capaz de suportar o fato de ter mantido relação incestuosa com seu meio-irmão – mesmo que só soubesse disso após contrair matrimônio. Édipo que também não suportou o peso de ter desposado a própria mãe e assassinado o pai, acabou furando os próprios olhos.
No cristianismo, tabu e pecado andaram historicamente juntos. A concepção de pecado é indissociável à ideia de livre-arbítrio. Esta é uma questão lógica, porque não poderíamos imputar erro a alguém que não comanda as próprias ações. Seria como julgar um robô por atos que são de inteira responsabilidade de seus programadores, o que inviabilizaria justificação ao castigo retributivo. Sendo assim, a responsabilidade recai integralmente sobre os próprios indivíduos.
O senso de pecado também é compartilhado por pessoas que não acreditam em Deus. O que se explicaria, em parte, pelo medo às censuras sociais e a determinados aspectos da personalidade humana. O temor ao castigo ou a vexação constitui poderoso expediente para reprimir atos de desobediência. Seus efeitos são sentidos, com maior intensidade, quando a ação atinge uma autoridade respeitada. Provavelmente adolescentes que vejam com naturalidade, entre si, o acesso a conteúdos de natureza sexual, se sentiriam constrangidos se fossem flagrados por seus pais.
É importante perceber como esses mecanismos são capazes de exercer bastante influência, revelando, entre outras coisas, nosso desejo íntimo de aceitação e valorização social.
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BOLETIM DA REDAÇÃO - 08/04/2026