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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: [email protected]

Eleições na APL

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publicado em 08/04/2026 ás 07h00
atualizado em 07/04/2026 ás 18h23

Hildeberto Barbosa Filho

 

“[…] No trem para Saint-Gratien, falamos da candidatura de Gautier à Academia e Saint-Beuve foi claro:

– Não tem a menor chance, precisaria de um ano de visitas, de solicitações, os acadêmicos não o conhecem… Veja, é preciso que eles o tenham visto, que o identifique fisicamente. A eleição, saiba, é uma intriga… no bom sentido, é claro. Terá o voto de Hugo, de Feulliet, de Rémsut, acho que também o de Vitet. Ele precisaria ver com muita assiduidade esses dois últimos. Com alguma negociação, talvez Cousin. Por intermédio da princesa, podemos conseguir Sacy”.

Transcrevo este trecho do Diário dos irmãos Goncourt, para refletir um pouco acerca das eleições para a nossa APL – Academia Paraibana de Letras, evidentemente preservando as características essenciais de sua singularidade, mas também sem olvidar as raízes de seus ilustres modelos: As Academias Brasileira e Francesa de Letras.

Ninguém, à sua época, mais talhado para ocupar uma cadeira na Academia do que o escolado poeta Theophilo Gautier. Tentou quatro vezes ser eleito, mas em nenhuma das oportunidades, obteve êxito. Sua mortalidade estava selada pelo Destino, este Deus cruel, muito embora, a se levar em conta o valor intrínseco de sua produção literária, ninguém merecesse tanto essa justa e reconhecida glória.

Esse é apenas um exemplo. E existem tantos outros! Afinal, a imortalidade não é credencial para todos. Nem mesmo para àqueles que, de fato, a merecem. Parece que certos deuses diabólicos mexem muitas pedras para favorecer ou desfavorecer uma simples criatura humana.

Estou na casa de Coriolano de Medeiros há mais de vinte anos e já vi muitas coisas. Coisas que podem parecer estranhas aos que desconhecem os estatutos que regem sua estrutura, seu funcionamento e a convivência curiosa e ambivalente entre seus pares. Coisas estranhas para os de fora; coisas comuns para os de dentro.

Devo dizer que as eleições para uma vaga na Academia não são como as eleições para prefeito, deputado, governador ou presidente. Votar num candidato ou numa candidata, em pleitos acadêmicos, parece exigir outros critérios que não os estritamente ideológicos, mais relevantes, me parece, na escolha dos nossos representantes públicos. Pode ser que a posição política de um candidato ou candidata não agrade a esse ou aquele acadêmico, impedindo estes de apoiarem o seu nome. Os fantasmas da direita ou da esquerda às vezes frequentam os compartimentos da vetusta casa.

A experiência, todavia, me ensina que esta não é a regra. Grosso modo, os acadêmicos se baseiam em elementos muito subjetivos, às vezes secreto, às vezes, não, desconsiderando, desde já, o que deveria ser a justificativa principal, isto é, o reconhecido mérito literário, científico e filosófico do candidato ou candidata, garantidos comprovadamente pela realização intelectual e artística, materializada em obras importantes e em notável atuação na cena cultural.

No mais das vezes, vota-se por amizade ou deixa-se de votar por inimizade, inveja, ressentimento e outras mesquinharias da natureza humana. Vota-se também por gratidão, por lealdade, por admiração, ou deixa-se de votar devido a certas “negociações” que possam vir a favorecer ou desfavorecer os misteriosos interesses dos acadêmicos. Outros e outras nem votam, se abstêm ou votam nulo ou em branco, fiados nas mais insólitas e escabrosas razões de seu incontornável e soberbo espírito acadêmico.

Como diz Saint-Beuve, citado pelos Goncourt, a eleição é uma intriga! Diria mais, é uma fábula de mal entendidos, um quebra-cabeças de peças improváveis, um curto momento onde a bizarra ilusão da imortalidade experimenta o fascínio de seu risível poder. Sim, porque todo poder tem qualquer coisa de ridículo! Guilherme Figueiredo, escritor e dramaturgo, narra bem esse calvário, entre grotesco e patético, num livrinho delicioso, intitulado As excelências ou como entrar para a Academia. Eis uma cartilha ou manual que todo candidato ou candidata deveriam ler antes de registrar seu nome como postulante à cadeira X ou Y.

Aqui, felizmente, não temos princesa nem príncipes (ou temos?), porém, seríamos muito inocentes se ignorássemos as eminências pardas que circulam pelo clima acadêmico em períodos de eleição. Petitórios, telefonemas, conversações fazem o gosto desses especialistas do disse-me-disse, de certa maneira revelando que a Academia está na mira dos sonhos de muita gente. Mesmo com suas contradições, imperfeições e mal querenças.

Verdade!

Muitos falam mal da Academia, contudo, muitos mais querem ocupar a vaga de um imortal. Muitos cobiçam conviver com esses seres esquisitos, os ditos e as ditas imortais, e habitar, nem que seja de modo fugaz e sorrateiro, uma casa antiga cheia de retratos do passado.

Eis mais uma ilusão da vaidade humana. Só que, para toda ilusão, paga-se um preço. E o preço desta é que o candidato ou candidata aceitem as normas difusas e traiçoeiras das eleições, procurem reverenciar os acadêmicos e as acadêmicas (quem não gosta de se sentir importante?); apresentem-se humildemente com seus currículos e concorram. Se perderem, jamais ficar ressentidos; tentar de novo, quando outra vaga surgir, isto é, quando um acadêmico morrer; tentar, pelo menos, até quatro vezes, como fez Theophilo Gautier.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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