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Marcos Pires é advogado, contador de causos e criador do Bloco Baratona. E-mail: [email protected]

A falta que a energia faz

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publicado em 03/04/2026 ás 22h57

A nova geração nem imagina como era frequente a falta de energia por estas bandas. E não havia essa mamata de aviso antecipado sobre a suspensão do fornecimento em tal localidade. Estávamos jantando e pou! Era o maior breu. Descobrir onde estavam as velas e os fósforos naquela escuridão era punk.
Quando eu era maloqueiro no Miramar e faltava energia, saíamos de nossas casas, corríamos para a calçada e ficávamos esperando que as luzes acendessem novamente. Lembrem que as luzes dos postes na rua também estavam apagadas. Vez por outra dava pra organizar um barra a barra na calçada, mas era perigoso. No escuro arrancávamos o chamboque do dedo em chutes dados nos paralelepípedos ou ralávamos os joelhos nas quedas que o cimento duro aparava. Mais seguro era ficarmos contando histórias de assombrações que perturbariam nosso sono depois. E então, do nada, as luzes reacendiam. Se você foi criança naquela época e não gritou a plenos pulmões festejando a volta da energia me desculpe, mas sua infância deve ter sido menos rica do que a nossa.
Com o tempo o serviço foi ficando menos ruim e a falta de energia passou a ser mais espaçada. Porém continuou a faltar e de uma forma mais cruel, pelo menos para mim, que já começava a advogar num pequeno escritório do edifício Paraná aqui em João Pessoa e tinha que entrar num elevador mínimo até o sétimo andar. Como sou confessadamente claustrofóbico, morria de medo daquela geringonça parar no meio do percurso. E de tanto temer acho que “chamei” a cena. Como na época não havia geradores, um dia o elevador parou e a luz apagou. Desespero total. Eu e os outros passageiros conseguimos com muito esforço abrir as portas para a entrada de ar. Observei que o elevador estava parado entre dois andares, sobrando uns 60 centímetros na parte de baixo. Na minha loucura momentânea, tentei sair me arrastando e, graças a Deus, os outros passageiros me impediram bem a tempo, porque a energia voltou novamente, as portas fecharam e o elevador voltou a funcionar. Até hoje não sei se as portas fechando teriam impedido o elevador de subir e me cortar ao meio. Só sei que a lembrança me dá uma gastura enorme.
Desde então prefiro as escadas, os degraus são companheiros mais fiéis.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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