José Nunes
Certa vez, em uma manhã de sábado, éramos três amigos com sonhos incomuns, seguindo pelas veredas do Sítio Antas como quem busca os zumbis adormecidos nos antigos canaviais, lembrados pelo poeta Raimundo Asfora no dia em que defunto João Pedro Teixeira era reverenciado no Ponto de Cem Réis. Não íamos caçar zumbis, mas tentar refazer a última caminhada do camponês que, no dia 2 de abril de 1962, tombou como um passarinho ferido no peito por uma bala desferida por detrás de uma moita.
Décadas depois, impulsionados pelos sonhos de liberdade e justiça, tentamos reconstruir o perfil do líder camponês a partir de testemunhos, seja de familiares, mas, sobretudo, dos depoimentos de quem presenciou os acontecimentos, registrando para a História de luta de trabalhadores no campo, de modo que ninguém passe uma esponja nas poças de sangue que encharcaram a terra cobertas de canaviais naquele abril sangrento.
Recompondo as imagens pela visão dos repórteres que à época fizeram a cobertura para os jornais, ao longo das veredas por onde passávamos, tantos anos depois, nos leirões crescem a maniva, o feijão de corda e o milho que brota viçoso. A água cristalina do riacho parece aspergir os mesmos corpos doloridos e mãos calejadas de nossos tempos. Entre as veredas, percebe-se o vulto do camponês que morreu abraçado aos livros e aos cadernos que levava para os filhos.
A morte de João Pedro Teixeira vinha sendo anunciada a partir dos acontecimentos envolvendo outros camponeses, fazendeiros e usineiros pela nesga de terra. O estado de tensão no meio rural aumentava e, em dezembro de 1961, a vítima foi Pedro Fazendeiro, outro homem simples que sabia escutar a voz da terra.
A cada camponês que tombava ensanguentado, voltando ao pó da terra, novos homens tostados pelo sol dos canaviais surgiam como liderança. Os partidos de cana e fazendas se tornaram escola rústica de camponeses.
Enquanto afastava um galho de sabiá que cruzava o caminho por onde passaríamos, alguém recordou o discurso do poeta, revelador da alma do camponês. “É inútil matar camponeses. Eles sempre viverão”.
Em um rompente poético, sem abrandar o entusiasmo, o poeta clamou que João Pedro virou Zumbi, uma assombração para os que perseguem os excluídos. “É uma sombra que se alonga pelos canaviais, que bate nas portas das casas grandes dos engenhos, que povoa a reunião dos poderosos, que grita na voz do vento dentro da noite, e pede justiça, e clama vingança, que passeia pelas estradas de Sapé”. Se é que os poderosos têm consciência e piedade.
Ao chegar à casa da memória camponesa, passando pela via-dolorosa daqueles campos ainda marcado pelos passos trêmulos dos caboclos, a sensação é de que podem até matar o corpo, usar de violência extrema para o extermínio, mas nunca haverão de acoitar as ideias. Ideias de libertação são relâmpagos que cortam a escuridão. O sangue derramado de cada agricultor que empapa a terra, fertiliza sonhos.
Ainda hoje, mesmo que existiam sinais tristes no burgo composto pelas paisagens das várzeas com seus canaviais, resta a esperança no grito silencioso dos excluídos.
Se em todos esses anos pouca coisa mudou, os acontecimentos, as palavras e os gestos ecoando nos rincões ficarão na memória, recolhendo a poeira dos caminhos sem apagar os rastos, de modo que outros possam continuar apontando a luz no horizonte distante.
Depois de alimentar o poder durante séculos, vozes republicanas continuam com a mesma voracidade de quando se apoderaram definitivamente do poder, em 1889. A chibata e o cambão juntos, a sujeição no casebre onde a dor flameja como labaredas, homens, mulheres e crianças retendo o soluço, mas guardando a esperança.
O sangue do camponês martirizado, os de antes e aqueles de agora que a terra recebeu com as marcas da violência, haverá de continuar na lembrança por todos os tempos.
O clamor daquele povo não se perdeu por entre os canaviais, reduto da opressão, porque vem do espírito de justiça que procede de Deus. O clamor do trabalhador nas terras da Paraíba foi um diálogo de Deus com o povo espezinhado, principalmente, pelas usinas, de onde haverá de brotar leite e mel.
Ilustração –
Os camponeses na arte de Bruegel, o Velho (c.1525-1569)
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