José Nunes
O olhar silencioso do monge oblato beneditino vestido com hábito escuro sentado na estala, usando cogula durante a reza do ofício divino e na execução de cânticos gregorianos no Mosteiro de São Bento de Olinda, ficou como a última lembrança de Dom Marcelo Carvalheira.
Quando lembramos do dia da ordenação de Dom Marcelo, ocorrida a 28 de fevereiro de 1953, numa catacumba em Roma, voltamos nosso olhar para este homem franzino, de voz calma e opiniões firmes em favor da vida. Foi um padre do silêncio, mas de grandes realizações pastorais e de defesa dos pobres.
O ambiente das catacumbas romanas, onde dois mil anos atrás o sangue de cristãos umedecia o chão de terra batida, impregnou no jovem presbítero que, retornando à terra natal, desejava permanecer no Mosteiro Beneditino, onde nos tempos quando acompanhava Dom Helder Câmara, foi acolhido como oblato, escolhendo o nome de José.
Encantado pela beleza do Evangelho, estudioso de antigos documentos da Igreja, como também de textos produzidos depois do Concílio Vaticano II, foi Padre forjado nos gestos de Dom Helder Câmara e alimentado pelos Evangelhos.
Ao chegar à Paraíba, como bispo-auxiliar de Dom José Maria Pires, em 1975, quando começava a florear suas atividades como Epíscopo, se deparou com um quadro espantoso, principalmente no campo. As questões sociais se agravavam na Paraíba, famílias eram expulsas do campo para atender a expansão do cultivo de cana.
Dom Marcelo foi bispo que ouvia o povo com benevolência e se abria em gentileza para todos que dele se aproximavam.
Costumava dizer que, ao chegar à Paraíba, encontrou o “povo crucificado” e era forte a presença da “civilização da pobreza”.
Afinado com as pessoas no convívio da comunidade de fé da Igreja e na sociedade de leigos, Dom Marcelo decidiu recriar uma nova Arca da Aliança. Não se recusou a enfrentar a opressão, mesmo com o sacrifício da liberdade e da vida. Muitas vezes foi ameaçado de morte por capangas armados pelos usineiros e grandes proprietários rurais.
Sua permanência em Guarabira por mais de uma década foi decisiva para fomentar a conscientização política e social da população da região.
Não esmoreceu diante da situação de conflitos sociais. As famílias agricultoras eram expulsas das terras pelos usineiros. Quando chegou ao Brejo, estava muito presente o assassinato do líder camponês João Pedro Teixeira e, anos depois, teve o inquietante caso de Margarida Maria Alves, morta em situação semelhante.
Na sua caminhada pastoral, colocou o tempero do amor. Em tudo amava e servia em abundância e no limite de suas forças.
Por quase trinta anos como bispo nas terras da Paraíba, abriu largos horizontes para acolher quem se aproximasse dele, buscou consolo, ergueu os caídos, incentivou a fé, estimulou a escuta da Palavra de Jesus. Onde tudo desmoronava, construiu pontes, ergueu sonhos, e acalmou o ódio entre famílias. Sua palavra abrandava corações atormentado.
Dom Marcelo, um pastor a contemplar nuvens, fez presente as bem-aventurança de Jesus na vida das pessoas, sempre com a mão estendida aos necessitados.
Quando o governo se ausentou da defesa de pessoas dizimadas por milícia armada no meio rural, ele combateu os infortúnios do povo mergulhado no desespero.
Sua voz estrondava como trovão pelos arrabaldes das serras da região de Guarabira quando a mão do latifúndio atingia os desvalidos.
Seu olhar harmonizava os ambientes turvos, quando a lei dos homens imputava opressão, arrastando cordilheiras abaixo seres desprovidos de acesso aos seus direitos. Na Paraíba, em muitos lugares, ainda flamulam seus gestos meticulosos na busca de paz.
Seu abraço tinha largueza e ternura, amor abnegado e inabalável fé cristã. Sempre se recolhia para a oração vespertina, no silêncio da cela ou no oratório da natureza, como fazia enquanto residia nas terras paraibanas.
Em Guarabira construiu um eremitério afastado da cidade e quando esteve na Capital, em sua casa, fez construir espaço de onde observava a imensidão do Rio Sanhauá.
Retornando ao mosteiro beneditino após concluído seu tempo de Arcebispo da Paraíba, como oblato passava seus dias recolhidos em oração no claustro ou na cela, onde repousava à noite, até a sua morte no dia 27 de março de 2017.
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