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Estevam Dedalus é sociólogo, doutor em Ciências Sociais, professor da UEPB, músico e compositor. [email protected]

Os três porquinhos e a educação

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publicado em 27/03/2026 ás 16h06

Estevam Dedalus

As sociedades por mais diferentes que sejam criam formas de educar os seus membros. Há várias maneiras de entendermos como o fenômeno educativo acontece. Os sociólogos Émile Durkheim, Max Weber, Karl Marx, fundadores da sociologia, também conhecidos como os três porquinhos, deram uma importante contribuição para estudos nessa área.

Durkheim é quem tem o trabalho mais direcionado para o tema, sendo por isso considerado o pai da sociologia da educação. Ele foi a primeira pessoa a lecionar uma disciplina de sociologia em uma universidade. A maneira como concebe o processo educativo tem tudo a ver com sua forma de entender a sociedade. Para Durkheim a sociedade é uma realidade objetiva que independe do indivíduo, cuja existência o antecede. Ela funciona analogamente como um organismo, sua complexidade envolve a existência de diferentes partes que se articulam e que podem funcionar de maneira saudável ou não. Pertencer a uma sociedade significaria compartilhar dos mesmos códigos morais, o que só é possível através da socialização, ou seja, da educação. A educação teria, portanto, uma finalidade integradora, os laços sociais dependeriam do reconhecimento mútuo desses valores, sem ela a ordem social seria impossível. As gerações anteriores transmitem ainda para as mais novas conhecimentos especializados que serão úteis para o trabalho intelectual e manual.

As modernas sociedades industriais criaram uma divisão social do trabalho muito complexa que precipitou novas formas de individualidade e uma crescente fragmentação social. Durkheim via de maneira ambígua: se de um lado os indivíduos ganhavam em maior reflexividade, do outro, laços sociais poderiam enfraquecer a tal ponto que geraria um colapso. A educação escolar universal e obrigatória, na visão de Durkheim, poderia ajudar na reafirmação de valores gerais que fortaleceriam a unidade coletiva.

Max Weber viu na modernidade uma tendência à racionalização da vida social. Ao contrário do seu colega francês, a sociologia não seria uma ciência dos grupos sociais, mas dos indivíduos agindo socialmente. A moderna sociedade capitalista precisa de previsibilidade, controle  e planejamento para funcionar. O Estado moderno, por exemplo, tem a burocracia como forma de organização. O que garante racionalidade aos processos administrativos e uma maior impessoalidade. Outro fator importante é ascensão da ciência que ajudou a diminuir o peso das explicações mágicas do mundo, oferecendo uma visão mais descritiva do que normativa da realidade. Isso levou ao declínio de disciplinas como filosofia e teologia, como a valorização de áreas técnicas, da engenharia e do pensamento pragmático. A organização do conhecimento se tornaria mais especializada. O mundo moderno é o mundo dos especialistas, da técnica e do cálculo.   De tal modo as escolas e os currículos passaram a incorporar características e necessidades do tempo e da economia capitalista.

As ideias de Karl Marx nos permite observar na escola uma instituição fundamental para a reprodução das condições e relações de produção. Ela faz parte do que Marx definiu como superestrutura social, isto é, a dimensão cultural e institucional de uma sociedade que, em última instância, é determinada pelas relações sociais de produção. A sociedade capitalista repousa numa cisão fundamental entre a classe burguesa, dona dos meios de produção, e a classe dos trabalhadores responsável por vender a sua força de trabalho. A escola moderna tem muitas semelhanças com as fábricas, que podem ser vistas no sistema disciplinar implementado: o controle do tempo, o uso de fardamentos etc. Além disso, as escolas capacitam os indivíduos para a vida no trabalho e impõem uma seleção social. Como garante a formação de indivíduos capazes de criar as condições para desenvolvimento tecnológico, vital para o desenvolvimento das forças produtivas.

A escola é aparato fundamental para a reprodução das ideologias dominantes. Praticamente todas as pessoas passam pela escola, que tem abrangência enorme. Para existir, o capitalismo precisa criar os meios de justificação e ocultamento das relações de exploração. As relações de propriedade estão na base das desigualdades sociais e são naturalizadas pela ideologia. A consciência está ligada às condições materiais de vida; a distorção ideológica é um empecilho à mudança social. Toda educação tem um conteúdo de classe. É por isso que uma educação libertadora deve romper com a alienação e a ideologia burguesas. O que só me parece plenamente possível numa sociedade sem classes sociais.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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