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Professora Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP]. E-mail: [email protected]

    A ação do cupido

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publicado em 25/03/2026 ás 17h11

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Quando falamos em cupido imediatamente pensamos em amor. E, realmente, tem sentido. Ao escrever sobre fatos que envolvem o sentimento de amor, toca-me a sensibilidade de observar as pessoas em seus detalhes, que às vezes são elas que fazem a diferença e tornam o que redijo mais verdadeiro e humano e faço transportar para o que cada um de nós vive ou possa ter vivido. Não invento nem coloco o imaginário.  Retrato a realidade observada.

O cupido na mitologia grega é o Deus do amor, do desejo e da paixão. Às vezes dizemos fulano foi flechado pelo cupido, usando esse simbolismo para expressar que está apaixonado. Geralmente, ele é retratado por uma criança como se fosse um anjinho com a flecha na mão pronto para jogar e fisgar alguém. Ao me reportar a este assunto é porque tenho uma amiga, professora de ginástica, que tem o hábito de agir como o cupido. Vou contar uma história que se iniciou nas aulas de hidroginástica.

Marina trabalha em uma grande academia e ministra aulas para diversas turmas de níveis diferentes, adultos, crianças e idosos, em dias variados o que faz suas aulas muito enriquecedoras e divertidas. Eu faço parte de uma das turmas e tenho muita amizade com a docente. Conversando, contou-me a história de Artur, um senhor muito simpático, que também frequentava uma das turmas da noite. Durante um papo com a Marina, queixou-se que vivia muito só e que gostaria de ter uma companheira e que seus filhos já estavam todos grandes, formados e independentes. Estava com 70 anos e sentia muito a solidão. Ele é do Rio Grande do Sul, empresário bem-sucedido no ramo de confecções, tinha três fabricas em sua cidade, uma no centro da cidade e as outras duas em dois shoppings, de modo que vivia muito bem.  Encontrava-se muito triste e desolado porque já ia no terceiro casamento e fora traído por todas as mulheres que teve. Ficava se questionando sem saber por que acontecia isso? Não sabia o porquê? Atribuía a ser muito romântico. A última mulher queixou-se que ele era muito meloso. Isto por que gosta de dar rosas, fazer as coisas de casa juntos e viver o verdadeiro sentimento do companheirismo, etc.

Tomou uma decisão. Reuniu todos os três filhos, distribuiu os bens e disse que ia para João Pessoa, junto da família e dos irmãos. Ia se desfazer de tudo que ele construiu no Rio Grande. Pretendia com isso viver junto aos parentes que residiam na Paraíba. Os filhos concordaram e disseram que ele fizesse o que entendesse, o que fosse melhor para ele. Repartiu os bens para cada filho, embora todos estivessem bem de vida, dois deles já transitavam no ramo da confecção. De modo que uma das fábricas ficou com eles. Vendeu tudo e veio embora para João Pessoa com intenção de começar uma nova vida.

Marina tinha uma turma de hidroginástica, pela manhã, de pessoas idosas e dentro dela existia uma senhora, Maria Luíza, com 50 anos, que nunca havia casado. Maria Luíza, quando adolescente, teve um namorado que não deu certo, mas se envolveu com ele, engravidou e teve uma filha. Frustrou-se e nunca mais quis saber de homem nenhum. A família dela era muito bem estruturada, tradicional e com boa condição financeira. O pai tolerou a situação que ela fosse mãe solteira e a ajudou a se formar em psicologia. Montou uma clínica, comprou apartamento, de modo que ela era uma mulher independente. A filha fazia medicina em Universidade particular e quem pagava as mensalidades eram os pais. Uma coisa Marina observava, que quando era combinado algum encontro com a turma e saiam juntas Maria Luísa sempre se referia que as colegas tinham um companheiro ao lado e ela não, o que a deixava chateada. Marina dizia: “Deus vai mandar seu varão” e acrescentava que iria encontrar uma pessoa que desse certo e Deus estava preparando.

Quando foi um dia, Marina falou a Maria Luíza sobre Artur, expondo que havia um senhor na turma da noite que se queixava muito de sua solidão e desejava encontrar um grande amor, uma companheira e lembrou-se de apresentar ele a Maria Luiza e contou para ela toda história que sabia da sua vida. Ao terminar de falar ela imediatamente pediu para ver uma foto e se espantou. “É um velho! Ele é muito velho para mim. ” Aí Marina ponderou dizendo: “ não”. Você precisa de uma pessoa madura que lhe dê segurança e essas qualidades ele tem. Ele é um homem muito bom. Marina acrescentou: “Marí dê uma chance a ele, quem sabe … só você o conhecendo. Vamos marcar um jantar, fazer uma coisa especial, para você conhecê-lo? Como amigos? Maria Luísa concordou.

Quando foi à noite, Marina encontrou-se com Artur e relatou, que tinha uma aluna na turma da manhã que era uma moça de seus cinquentas e poucos anos, moça bonita e que também se sentia só e achava que os dois dariam certo. Contou a sua vida para ele e disse que era uma mulher formada, independente, não iria ficar com ele por interesse; se ela ficasse era por amor mesmo. Disse: “Vamos marcar um encontro num restaurante, nós quatro, eu, meu marido e vocês dois. Tem que ser assim porque se for ela sozinha, Maria Luísa disse-me que não aceita. ” Marcaram o jantar, e iniciaram o namoro,.

Para o jantar foram Marina, Sueli e esposo que era uma amiga também da hidro, com seu esposo, Maria Luísa e Artur. Ele escolheu o restaurante na praia, muito chique. Na hora que Artur chegou foi uma surpresa, veio com três buquês de rosas e os deu a cada mulher um. Todos ficaram atônitos, com o gesto dele. A noite foi agradável e de conversa prazerosa. Artur mostrou-se muito romântico e muito sensível. Deu para perceber que entre Maria Luísa e Artur quando os olhos deles se tocaram, rolou uma química diferente. O papo foi coletivo, mas sempre Artur mostrava interesse de conhecer mais sobre Maria Luísa. No final do jantar o grupo trocou endereço e telefone. A seguir, Artur procurou comunicar-se por WhatsApp com Maria Luísa. Passados uns quinze dias de conversa Artur ligou e marcaram encontro, dando início ao namoro.

Maria Luísa começou a namorar Artur, mas ficou muito preocupada pois, apesar de independente, nunca tinha tomado uma decisão, pois havia muito respeito aos seus pais e ficava temerosa da reação deles, que não aceitassem o relacionamento com Artur considerando a sua idade, muito mais velho que ela. etc. Artur era homem muito correto, com caráter firme, direito, e gostava das coisas certas. Dispôs-se a falar com seus pais. Esteve com eles, mostrou para eles quais eram suas intenções. Os pais concordaram no namoro e com quatro meses de relacionamento eles casaram.

Hoje, já faz seis anos de casados; a filha de Maria Luiza, Cibele, formou-se e casou. Já tem uma filhinha e já está esperando outra e  Artur a considera neta. Ela e Artur já foram ao Rio Grande sendo bem acolhida pela família e seus filhos, estabelecendo um ambiente de amor e amizade que os fazem felizes.  Marina perdeu-os de vista pois com a filha casada foi morar no Bessa, onde também comprou um apartamento no mesmo bairro para poder ficar perto da filha e dar mais assistência e apoio nesse começo de vida do casal. Marina sempre se comunica com Artur e Maria Luísa por telefone. Ultimamente, foi convidada com a família para passar um final de semana na casa de campo que eles compraram e que se constitui num lugar de laser e reunião da família. Disse-me: “ eu fiquei feliz, por ter constatado a felicidade do casal e ter contribuído para que tudo acontecesse.

Esta história demonstra que o amor não tem idade e, apesar das frustações de Artur e de Maria Luísa, no passado, o presente mostrou que ainda possuem um coração que pulsa e estão aptos e abertos para o amor, despojando-se para doar-se um ao outro e poder experimentar e desfrutar de um amor verdadeiro, desprendido do egoísmo, fazendo acreditar que a felicidade existe e às vezes é condicionada a uma oportunidade que lhe for concedida. Nesse caso, foi Marina que agiu como cupido. Quantas pessoas teriam necessidade de encontrar um cupido como Marina para viver a felicidade que tanto almejavam!

Profª. Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP)

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