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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: [email protected]

Casa antiga 

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publicado em 25/03/2026 ás 07h00
atualizado em 24/03/2026 ás 18h16

Minha casa

era cheia de locas encantadas,

cheia de arvoredos, mágicos

quintais.

Detrás do Juazeiro,

morava um profeta de Jerusalém.

No jardim, onde hortênsias

se riam da urbana tristeza,

Hipócrates ministrava seu curso

de medicina grega.

Platão sentava comigo

num velho banco de pedra

e tentava me engambelar

com a vitrine do idealismo.

Aristóteles me dava lições

de poética formal,

sem perceber que o abismo

da Idade Média lambia a cal

das paredes.

Minha casa

estava cheia de pássaros,

gaiolas, sinos, pedras, chaveiros,

chocalhos, facas, adagas, terracota,

tudo que me excitava ao legume

de uma coleção.

Tinha santo por todos os lados,

mas nunca tive fé.

Tinha  muitos livros raros,

cartas do século findo,

um tosco almanaque de bruxedos

vindo da Islândia.

No corredor,

sempre proseava com meus mortos,

jogava damas com o aroma

da ausência,

rogava que me esperassem

sob o sol da eternidade.

Minha casa

era um museu de ocasos,

ventanias, crepúsculos, tempestades,

oratórios, saudade.

Em cada quarto

nascia uma  metáfora

de Holderlin,

um esquecido soneto

de Augusto,

todas as elegias do mundo.

No alpendre, vasto, ventilado,

só cabia o spleen  de Baudelaire,

certas coisas de Paris

que já se foram.

O rio Sena,

a serenidade de suas águas

dentro da memória.

Tudo se misturava

na sala de minha casa.

A cadeira de balanço

onde minha avó tricotava

as agonias de dentro,

a garrafa de conhaque

que meu pai não secou,

o retrato de Jesus Cristo

espiando nosso desamparo.

Lá fora,

os cavalos relinchavam

a epopeia dos músculos

dentro da velocidade.

A tarde descia dos céus

como um antigo acalanto.

Íamos dormir,

meninos assombrados

com os feitiços da noite.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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