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A Fé Católica 2.0 chegou com força.
Padres que usam redes sociais, lives e vídeos curtos têm levado a mensagem cristã para milhões de pessoas todos os dias. Grandes eventos com esses padres lotam estádios, igrejas e praças. Multidões se reúnem para ouvir pregações, cantar e rezar juntos. Isso tem ajudado na multiplicação da fé, especialmente entre jovens que antes não frequentavam a igreja.
Padres como Reginaldo Manzotti, com quase 13 milhões de seguidores, Paulo Ricardo, com mais de 2 milhões no YouTube, e Fábio de Melo atraem atenção enorme. Eles pregam ao vivo, respondem dúvidas e criam conteúdo diário. O resultado é claro: mais gente se aproxima da Igreja, participa de missas online e volta a rezar.
A religião toca algo muito pessoal dentro de cada um. Quando padres influencers falam de fé de forma próxima e cotidiana, muitas pessoas que estavam afastadas voltam a se sentir acolhidas. Temas como saúde mental, musculação, equilíbrio emocional e cuidado com o corpo agora são debatidos abertamente. Antes, esses assuntos quase não apareciam nos púlpitos tradicionais. Hoje, eles mostram que a fé pode caminhar junto com a vida real, ajudando as pessoas a cuidar do corpo e da mente sem deixar a espiritualidade de lado.
Por outro lado, a fé católica virou commodity. Lives, cursos pagos, livros, camisetas, terços especiais e eventos geram receita constante. O foco em visual, engajamento e números de seguidores pode transformar a evangelização em algo parecido com marketing digital. A aparência ganha espaço. Casos de harmonização facial entre padres viraram tema de debate.
Padre Fábio de Melo foi questionado várias vezes sobre mudanças no rosto. Ele nega ter feito procedimentos estéticos e explica que usa medicamentos para tratar uma doença. Outros padres falam abertamente sobre botox, harmonização e cuidado com a imagem. Isso gera polêmica: a fé deve priorizar o interior ou também o exterior?
O professor Moisés Sbardelotto, da PUC Minas e pesquisador da religiosidade no ambiente digital, observa que há um paradoxo: “Tem um certo paradoxo entre a fé e essas lógicas digitais. Como ela sobrevive na sua autenticidade num ambiente que é pautado no fundo pelo lucro?”
Uso de inteligência artificial
Alguns padres já usam IA para criar roteiros, legendas ou até partes de homilias. O Papa Leão XIV pediu prudência nesse ponto. Ele orientou os sacerdotes a não usarem inteligência artificial para escrever homilias ou buscar curtidas nas redes. Para o Papa, a fé precisa de voz e rosto humanos autênticos. A IA não pode substituir a experiência real de quem vive o Evangelho.
Dados sobre o mercado de produtos católicos
O movimento digital também impulsiona o consumo. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Artigos Religiosos, o setor de artigos religiosos movimenta cerca de R$ 15 bilhões por ano no Brasil. Globalmente, o mercado de produtos religiosos e espirituais foi estimado em US$ 5,5 bilhões em 2024 e deve crescer para US$ 15,7 bilhões até 2034, com taxa anual de 11,4%, segundo a Global Market Insights.
Os padres influencers mostram que a Igreja pode falar a linguagem do tempo atual e alcançar quem está longe. Ao mesmo tempo, levantam perguntas sobre autenticidade, aparência e comercialização da fé. O digital ampliou o alcance da mensagem católica, mas também trouxe desafios novos. No final, fica a pergunta: como manter o equilíbrio entre evangelizar com ferramentas modernas e preservar o essencial da fé, que é simples e verdadeiro?
Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e Netnografia no Belicosa.com.br
* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB
ENTREVISTA - 11/05/2026





