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Comecei a assistir à série da Netflix “O Conto da Aia” (The Homemade’s Tale) no final de semana, após lembrar a aula do mestrado, em que minhas colegas usaram essa série para paradoxar o seminário da Professora Janaína Penalva.
Enquanto o seminário foi um sucesso ao expressar com clareza as nuances do racismo, a série acima descrita, em forma de romance distópico, sobre a República de Gilead, escrita por Margaret Atwood, num regime teocrático totalitário nos EUA que escraviza mulheres férteis, chamadas de “Aias”, para repovoar o mundo após crises de infertilidade.
Essa séria trouxe à balia uma série de questionamentos sobre o valor da mulher na sociedade, num momento tão expressivo, em que de outro lado, na República das Bananas do Brasil, uma magistrada perde a vida em razão de procedimento de extração de óvulos para fertilização in vitro (FIV), e sua morte é banalizada numa charge de um grande jornal, sem o menor respeito pela dor da família enlutada, da cidadã, que embora magistrada, merece o respeito como ser humano digno.
Essa charge descritna numa lápide a frase “Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos” rendeu a indignação de todo o país, não só pela falta de respeito pelo fim trágico da magistrada, que com ser humano, mulher, filha, esposa e cidadã, merece respeito.
Acende a discussão sobre esse tipo de tragédia, em que as imensas pressões sociais enfrentadas por mulheres contemporâneas de alta performance profissional, que frequentemente precisam adiar a maternidade para se consolidar na carreira e, depois, submetem seus corpos a tratamentos médicos complexos e invasivos para realizar o desejo de ser mãe.
Toda crítica deve ser benvinda, quando bem colocada e apropriada ao momento, porque não se pode num país democrático, cercear a liberdade de expressão, em hipótese alguma, mas essa liberdade praticada pela imprensa que tem curadoria, formada por jornalistas de escol, deve saber como se expressar, sob pena de causar uma colisão aos direitos fundamentais, ao reduzir a morte de um ser humano e o luto de sua família, ao símbolo da engrenagem político-econômica da crítica aos privilégios de uma classe.
A infeliz charge fez exatamente como no Conto da Aia. Praticou um violência simbólica a toda classe feminina, não só das magistradas, mas de todas as mulheres que se sacrificam em prol de um sonho maior chamado maternidade, e isso se vê na Sociedade de Gelead, em que há o apagamento da individualidade feminina, por uma ferramenta de controle, que tem nas mulheres de vermelho as “Aias” (reprodutoras), de verde as “Marthas” (empregadas) e de Azul as “Esposas”, que deixam de ser pessoas com dores e desejos, sem dignidade e honra.
O fato é que seja pela infelicidade da charge da lápide ou mesmo pelo Conto Distópico da Aia, o que sobressai é o alerta sobre o retrocesso de nossa sociedade para com o respeito à mulher, tão vítima, todos esses anos, após séculos de dominação e patriarcado, mas após conseguir seu lugar nobre na sociedade, às custas de muito estudo e batalhas, perde a vida tão trágica e prematuramente, cujo o desrespeito à dignidade e a dor, tomam conta de uma memória que passa a se coletivizar.
Essa fica pela memória de Mariana Francisco Ferreira, que descanse em paz, como símbolo da luta das mulheres que mesmo vencendo na vida, não esquecem do seu desejo maior de perpetuar a especie.
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ENTREVISTA - 11/05/2026