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Juiza de 9a Vara Civel de João Pessoa. Especialista em Gestão Jurisdicional de Meios e Fins e Direito Digital

O Conto da Aia e a lápide infeliz

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publicado em 12/05/2026 ás 08h39
atualizado em 12/05/2026 ás 10h13

O Conto da Aia e lápide infeliz

Comecei a assistir à série da Netflix “O Conto da Aia” (The Homemade’s Tale) no final de semana, após lembrar a aula do mestrado, quando minhas colegas ( Paulinha, Isabelle, Rafaela e Renata) usaram essa série para paradoxar o seminário da Professora Janaína Penalva.

Enquanto o seminário foi um sucesso ao expressar com clareza as nuances do racismo e da problemática do gênero, a série acima descrita, em forma de romance distópico, se passa na República de Gilead, escrita por Margaret Atwood, em que um regime teocrático totalitário nos EUA escraviza mulheres férteis, chamadas de “Aias”, para repovoar o mundo após uma imensa crise de infertilidade.

Essa série trouxe à balia um pleiade de questionamentos sobre o valor da mulher na sociedade, num momento tão expressivo, em que,  de outro lado da América, na República das Bananas do Brasil, uma magistrada perde a vida em razão de procedimento de extração de óvulos para fertilização in vitro (FIV), e sua morte é banalizada numa charge de um grande jornal nacional, sem o menor respeito pela dor da família enlutada, e da cidadã, que como magistrada, merece todo o respeito como ser humano digno.

Essa charge descreveu numa lápide a fraseVidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos” rendeu a indignação de todo o país, não só pela crueldade de suas palavras, mas também falta de respeito ao fim trágico da jovem juíza que, acima de tudo, é um ser humano, mulher, filha, esposa e cidadã, é merece todo respeito. 

Tal fato acende a discussão sobre esse tipo de tragédia, em que as pressões sociais enfrentadas por mulheres contemporâneas de alta performance profissional, frequentemente precisam adiar a maternidade para se consolidar na carreira e, depois, submetem seus corpos a tratamentos médicos complexos e invasivos para realizar o desejo de ser mãe.

Toda crítica deve ser benvinda, quando bem colocada e apropriada ao momento, porque não se pode num país democrático, cercear a liberdade de expressão, em hipótese alguma, mas essa liberdade praticada pela imprensa que tem curadoria, formada por jornalistas de escol, deve saber como se expressar, sob pena de causar uma colisão aos direitos fundamentais, ao reduzir a morte de um ser humano e o luto de sua família, ao símbolo crítica da engrenagem da político-econômica aos privilégios de uma classe.

A infeliz charge fez exatamente como no Conto da Aia. Praticou um violência simbólica a toda classe feminina, não só das magistradas, mas de todas as mulheres que se sacrificam em prol de um sonho maior chamado “maternidade”, e isso se vê na Sociedade de Gelead, em que há o apagamento da individualidade feminina, por uma ferramenta de controle, que tem as mulheres de vermelho as “Aias” (reprodutoras), de verde as “Marthas” (empregadas) e de Azul as “Esposas”, são pessoas com dores e desejos, mas que perdem suas dignidades e honras.

O fato é que seja pela infelicidade da charge da lápide ou mesmo pelo Conto Distópico da Aia, o que sobressai é o alerta sobre o retrocesso de nossa sociedade para com o respeito à mulher, tão vítima, todos esses anos, após séculos de dominação e patriarcado, mas após conseguir seu lugar nobre na sociedade, às custas de muito estudo e batalhas, perde a vida tão trágica e prematuramente, cujo o desrespeito à dignidade e a dor, tomam conta de uma memória que passa a se coletivizar.

Essa fica pela preservação da memória de Mariana Francisco Ferreira, que descanse em paz, como símbolo da luta das mulheres que, mesmo vencendo na vida, não esquecem o  desejo maior de perpetuar a espécie pelo amor da maternidade.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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