O poeta Murilo Mendes nasceu há 125 anos, precisamente no dia 13 de maio de 1901, e para lembrar da data retorno a seus livros carregando interrogações. A sua poesia sempre respondeu às minhas ansiedades e apontou caminhos místicos.
Não há nada melhor para celebrar a data do que recorrer a poesia deste poeta alagoano, de olhar místico, porque ajudou a amenizar nossas dúvidas e ansiedades espirituais.
Para ele, todos trazemos o germe do entusiasmo criador, mas poucos se comunicam em forma persuasiva, sem conferir à poesia uma linguagem metafórica engenhosa.
No seu entendimento “a operação poética é baseada em linguagem, afetividade e engenho construtivo”. Manifestando seu contentamento pela arte de escrever poemas, certa vez escreveu que “para manifestar suas constelações próprias” o poeta deve usar palavras que ajudem a desvendar as ansiedades da alma.
Estremeço quando escuto poeta utilizando a Inteligência Artificial para produzir “poesia” e outros textos literários. Ainda bem que temos poetas como Murilo Mendes para expressar o que o coração sente.
Meu primeiro contato com Murilo se deu com a leitura de “O Discípulo de Emaús”, cuja segunda edição guardo com carinho, levado pela ânsia de aprofundar o contato com o episódio da conversa de Jesus ressuscitado com dois amigos enquanto se dirigiam para o campo, ao retornarem de Jerusalém, depois do Mestre ter sido crucificado.
Murilo produziu vários poemas que evocam a crítica social, que o coloca em destacada posição na literatura brasileira, mas foi a poesia mística, a poesia da esperança, que o fez reverenciado. Visionário, extraiu do Cristianismo o testemunho e o martírio como inspiração. Em outra vertente, também na Religião cristã, elaborou poesia apontando a salvação da alma, com um olhar messiânico, pois entendia a Poesia como a musa da evolução do homem.
Num poema da fase inicial de sua produção poética, escreveu: “Todos ajuntando-se formarão um dia uma coluna/altíssima tocante as nuvens/e decifrarão o enigma”.
O olhar místico dele é o que mais me chama a atenção porque consegue entrelaçar o Catolicismo com a sensualismo sem desfigurar o Divino, porque mantém os traços do belo.
No poema “A Poesia em Pânico”, de profundas louvações a Deus, Murilo compara a Igreja a uma mulher, com suas silhuetas do corpo profundamente sensuais. A Igreja-mulher que inspira e revela grandes arrebatamentos no poeta.
Focando apenas para o olhar místico do poeta, ariscamos apontar uma profecia, acentuando o permanente caráter “cósmico” da sua poesia. “De fato, caminhamos para um tempo em que a medida dominante será a da universalidade; caminhamos para uma planetização dos fatos e ideias, de que a ciência e a técnica oferecem os sinais mais evidentes”, afirmou.
Na efervescência do modernismo e pós-modernismo, quando Carlos Drummond de Andrade e Manoel Bandeira eram os luminares da poesia brasileira, Murilo aparecia com “a poesia de espirito místico e libertário”.
Em depoimento ao Jornal do Brasil no ano de 1956, afirmou que pertencia à categoria dos interessados pelo finito e o infinito, porque era atraído pela migração das ideias, das imagens e de variedade das coisas.
Escutando o que falou, chegamos à conclusão que a poesia é uma aventura grandiosa do espírito, que deve ser escrita com sentimento e suspiros da alma.
Poeta que buscava a libertação da alma nos ensinamentos de Jesus, mesmo que em certos momentos tivesse dúvidas semelhantes ao que ocorreu com os discípulos de Emaús, mas com o tempo tudo se ajustou no seu interior. Foi a poesia que possibilitou a Murilo Mendes encontrar a verdade e a beleza que brotam das narrativas do livro Sagrado, porque a essência da Sabedoria está em Cristo. Pela Poesia ele tentou mostrar os mistérios de Deus.
Apesar de dúvidas visíveis em sua poesia com relação com a vida, percebe-se nele que Deus é uma ideia essencial de sua produção poética, pois ele vivia um misticismo permeado de olhar sensual, observando Jesus Cristo como “o único mestre, o supremo modelo do humano e do divino”. Com sua poesia tentou mostrar que Cristo e o homem se misturam na busca da salvação: “O humano em Cristo é divino no homem”.
Um excerto de um poema seu:
“Não sou Deus porque parto para Ele,
Sou um deus porque partem para mim.
Somos todos deuses porque partimos para um fim único”.
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