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Estevam Dedalus
A música é uma das invenções humanas mais antigas e extraordinárias. É impossível dizer o momento exato do seu surgimento. Especula-se que exista desde a Pré-História. Não conhecemos uma sociedade sem algum tipo de música.
Uma ideia comum entre historiadores é que sons e ritmos da natureza serviram de inspiração para as primeiras criações musicais. O que faz sentido. Como também, penso eu, uma certa propensão humana à ordem, provavelmente consequência de sua condição social, e a busca pelo prazer provocado pela beleza.
A música é um tipo de organização sonora, de padrões rítmicos no tempo e no espaço. A arte que para Arthur Schopenhauer revelaria “mais profundamente a verdadeira natureza do mundo” e provocaria o gozo “mais delicioso de todos”. As formas estéticas, porém, tendem a variar historicamente e estão sujeitas a fatores culturais.
A música ocidental moderna é baseada no sistema tonal cuja escala diatônica está dividida em sete notas e seus respectivos semitons. Esse sistema surgiu ainda na idade média. Não faltaram tentativas de romper com ele, especialmente no mundo da música erudita. Temos experiências ricas ao longo do século XX, um exemplo é o dodecafonismo de Arnold Schönberg e o expressionismo de Alban Berg.
Segundo Tom Zé, o sistema tonal seria uma prisão inventada pela Igreja Católica e o papa Gegrório I. A maneira como os primitivos cristãos cantavam, diz ele, parecia bastante com o canto árabe por causa das características melódicas microtonais.
Numa entrevista a Jô Soares, Tom Zé afirma que “essa prisão foi fundada do século IX em diante. Todos os físicos da história da música passaram mais de 10 anos discutindo se de dó pra ré era ¼ de 444… até chegar à conclusão desse dó, ré, mi, fá… só se tinha certeza dos dois dós que todo mundo sabe que é uma oitava, que é uma metade da vibração da corda.”
O mais interessante é como os séculos de predomínio do sistema tonal produziram uma percepção musical culturalmente condicionada na qual temos dificuldades de captar intervalos menores que um tom ou semitom. Houve assim o que podemos chamar de uma educação dos sentidos.
A música indiana e indonésia, por exemplo, são marcadas pelo microtonalismo. O que gerou nos ouvintes outro tipo de percepção. Entre dó e ré existem nove semitons (comas), mas a nossa escala diatônica só reconhece apenas um (dó sustenido ou ré bemol). O coma é o menor intervalo sonoro que somos capazes de ouvir.
O sistema tonal é dominante do pop ao death metal. Na música popular brasileira temos boas experiências de subversão estética a esse modelo. Um trabalho que gosto muito e que marcou uma era é o álbum Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé. Um dos principais expoentes da Vanguarda Paulista, ao lado de Itamar Assunção. O disco é 1980.
Em Clara Crocodilo ele explora as linguagens do atonalismo livre, do dodecafonismo e do serialismo na composição de canções. Sempre que ouço o disco sinto que estou numa realidade paralela com ares distópicos, o que é acentuado pelas temáticas das letras, a voz cavernosa de Arrigo e os backing vocais agudos e “caóticos”. É como se estivesse, estranhamente, em Laranja Mecânica com Alex e sua gangue de drugues conversando algo em nadsat (vocabulário do grupo).
Em 2018, Arrigo apresentou ao público um show em que interpretou canções de Roberto e Erasmo. O casamento do vanguardismo com as canções de uma das maiores duplas de compositores populares do Brasil levou a versões inusitadas, que valem a pena serem ouvidas.
Arrigo bem que poderia gravar um disco como essas versões. É possível ouvir alguma delas no youtube.
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SAÚDE - 20/03/2026