José Nunes
“Uma esmola para meus pobres!” Porque adotou muitos mendigos, Padre José Coutinho percorria a cidade pedindo dessa maneira.
Tenho lembranças deste padre, apesar de avistá-lo à distância. De pouca fala, com uma vontade enorme de servir, pedia esmolas para ajudar aos desvalidos. Repetia o que passou a ser mantra, ao tocar com uma vara na pessoa: “Uma esmola para meus pobres”.
Estas palavras tão repetidas, se tornaram familiar para mim. Ainda mais depois que Nathanael Alves, seu hóspede, contou que este padre de gestos caritativos atuava para oferecer agasalho aos pobres.
Após chegar para morar nesta cidade, observava este padre idoso percorrendo a cidade em cadeira de rodas, empurrada por duas pessoas. Padre José Coutinho ficava nas portas dos cinemas e clubes de festas pedindo esmolas para manter funcionando as casas de acolhimento que tinha fundado.
Se tratava de mendicante que ajudava pobres e desprotegidos, residentes nesta capital e vindos do interior, como foram Nathanael, Manoel Raposo, Antônio Ivo de Medeiros, Simeão Cananéia e tantos outros que se acomodavam nessa árvore frondosa.
Nunca desejou acumular riqueza, abdicando de benefícios financeiros. As fazendas que herdou em Pocinhos e Serraria, vendeu para investir no Instituto São José e no Hospital Padre Zé. O sítio recebido como doação, onde está parte do bairro de Mandacaru, permitiu que famílias construíssem residências.
Lembro essas passagens quando observo na folhinha do calendário a data da fundação do Instituto São José: 19 de março de 1935. Uma data emblemática para a Igreja na Paraíba e do Brasil, porque possibilitou executar um leque de ações em favor do povo sofrido, os que não tinham travesseiro para recostar a cabeça.
Este Instituto foi o primeiro grande projeto de sua vida, ao qual dedicava tempo e esforço incomum. Nesta casa de acolhimento, jovens repousavam e olhavam horizontes, descobriam caminhos para a vida. Aprendiam uma atividade profissional, estudavam e tinham a alimentação básica para a sobrevivência.
Outra obra idealizada e concretizada com a colaboração da sociedade, foi a fundação do hospital que, igualmente, tem a marca de suas mãos.
No tempo em que para manter o Instituto era um deus-nos-acuda, foi socorrido pelos abastados da sociedade, que recebiam cartas solicitando ajuda.
Cinco décadas antes, Padre Ibiapina mantinha uma das principais obras de caridade do Nordeste e talvez do País. Implantou uma ação caritativa porque sentiu as necessidades do povo dos rincões assolados pela fome e desprovido de qualquer providência governamental.
Acredito que as obras de caridade efetivadas pelo Padre Ibiapina tenham influenciado Padre José Coutinho porque, quando criança, viveu em áreas por onde o Apóstolo do Nordeste, esteve e certamente seus familiares falavam deste Servo de Deus. Trazendo as marcas de Jesus Cristo, ambos cuidaram dos pobres, cada um ao seu tempo e ao seu modo.
Foram padres com ideais semelhantes, apesar de cada um ter vivido em épocas diferentes, mas com situação de penúria parecida. Cada um servindo a sopa ou o feijão sem a mistura aos seus protegidos, quando muito pedaço de rapadura e farinha, como complemento da alimentação, porque a carne seca era produto de grã-finos.
Quanto lembramos da fundação do Instituto São José, nosso olhar se volta para seu benfeitor. Este padre arengava quando defendia os pobres para oferecer o mínimo de dignidade aos necessitados que estavam à sua sombra. Será lembrado como o “pai dos pobres”.
Despojado de pompas, catava donativos junto aos homens e mulheres de boa vontade para evitar que centenas de pessoas passassem fome e tivessem onde recostar a cabeça, espichados em uma rede no pequeno espaço da sede do Instituto São José.
Ele ensinou a viver plenitude do Evangelho, deu visibilidade a Igreja dos pobres com práticas caritativas.
Precisamos fazer memória deste venerável homem de Deus. Um padre de elevada postura religiosa, que se curvava até ao chão para ajudar aos pobres, um autêntico representante da Igreja servidora.
A cadeira de Padre Zé está vazia.
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