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José Nunes da Costa nasceu em 17 de março de 1954, em Serraria-PB, filho de José Pedro da Costa e Angélica Nunes da Costa. Diácono, jornalista, cronista, poeta e romancista, integra a Academia Paraibana de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, a União Brasileira de Escritores-Paraíba e a Associação Paraibana de Imprensa. Tem vários livros publicados. Escreveu biografias de personalidades políticas, culturais e religiosas da Paraíba.

Na Sombra das Artes  

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publicado em 03/03/2026 ás 19h15
 
 
José Nunes
A noite de terça-feira, dia 24 de fevereiro, quando aconteceu a sessão póstuma para lembrar Chico Pereira, ficará na lembrança da Academia Paraibana de Letras como um momento marcante.
Chico trouxe para a Academia a unidade do pensamento humanista representada nas artes e nas letras.
A sua obra se perpetuará como uma sombra para quem procura abrigo nas Artes.
Edificada com obras densamente humanas, a sombra de Chico acolhia a todos carentes de alimento que a Arte oferece, porque tudo observava com sutileza.
Podemos dizer que seus gestos sintetizavam a harmonia entre a Academia e as manifestações da alma de quem produz e necessita da Arte como alimento.
O acadêmico Hildeberto Barbosa Filho falou em nome da Academia, ressaltou a caminhada de Chico Pereira pelas Artes e das Letras, destacou ter sido um artista com gestos poéticos.
Outro destaque na sessão foi o pronunciamento de Rayssa, filha de Chico, que, pela sutileza das palavras e beleza nos gestos, emocionou os presentes.
O texto que muito comoveu:
“A JORNADA DAS PALAVRAS DE CHICO PEREIRA
Rayssa Soares Pereira
A humanidade sempre apresentou a necessidade de eternizar aquilo que o tempo poderia apagar; por isso, criou a letra. A palavra “texto” vem do latim textus, que significa tecido. Portanto, escrever é, literalmente, tecer os fios. A letra que compõe a palavra, sozinha, é apenas um símbolo; juntas, produzem um significante.
Sendo assim, o Mestre, que tem o domínio das palavras, sabe bem que, embora seja aquele que conduz os fios, não tece apenas sobre si mesmo, pois sua própria história é costurada em tantas outras palavras – daquelas que se foram e das que ainda estão presentes, alinhavando os fios das palavras.
Chico Pereira não apenas escrevia, mas tecia palavras com o novo e o antigo, o grande e o pequeno, com muitos instrumentos ou quase nenhum. E, enquanto os egípcios usavam os hieróglifos e os sumérios os cuneiformes, ele, por sua vez, usava sua generosidade para tecer em almas e cravar o conhecimento em nossos corações.
Passear pela história nos leva a questionar: onde habita o coração dos Grandes Mestres? Certamente na simplicidade.
A palavra simplicidade é uma das mais profundas da nossa língua. Significa aquilo que só possui uma dobra, ou que não as possui. Ele foi um Mestre sem dobras, desapegado, sem mistérios ou cerimônias. A sua palavra fazia morada na simplicidade. E sua casa possuía portas abertas para todos, pois compreendeu desde muito cedo que a palavra só se torna grande quando circula livremente.
Leonardo da Vinci nos conduz à reflexão de que a simplicidade é o último grau da sofisticação. Portanto, para um verdadeiro mestre, o triunfo é conseguir traduzi-la a todos.
Chico Pereira sentou-se na Cadeira 15 desta Grande Casa, a Academia Paraibana de Letras, manifestando o prazer e o compromisso de que a palavra não deveria ser intocável, mas sim um fio condutor de gerações, guardiã da história.
Assim o fez com maestria, honrando o legado daquele que a criou, Eugênio Toscano de Brito, que fez da palavra cura e do ensino, caminho. Bem como ao lado de tantos outros condutores da palavra, Augusto dos Anjos, José Lins do Rego Ariano Suassuna, o qual defenderam a cultura como instrumento de transformação, fazendo da palavra, ponte.
Hoje, com generosidade, Chico Pereira cede o seu lugar para que outro mestre possa assentar-se à mesa desta casa.
Agradecemos as homenagens em vida e as póstumas e queremos convidar para que sua palavra continue sendo visitada, não apenas lida. Que seus passos encontrem obras que permanecem no Museu da História da Paraíba; que se detenham diante da criação erguida na Estação Cabo Branco – Ciência, Cultura e Artes, a pedido de Oscar Niemeyer; que reconheçam sua presença no grafitti de Sponja, na Praça Aristides Lobo, 129, no centro de João Pessoa; e que embarquem nessa travessia sensível do livro Paraíba Memória Cultural. A obra de Chico Pereira não repousa, ela espera. E cada visita é um reencontro com a nossa própria história.
Com a Palavra eternamente, Chico Pereira”.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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