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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: [email protected]

A vida alheia

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publicado em 21/04/2026 ás 07h00
atualizado em 21/04/2026 ás 08h24

Há uma ligeireza da leitura das conversas seja pelo celular, ouvidos e penicos, que é uma condição para dizer não, sem sequer aceitar, o que traz desde logo o peso de uma coisa tóxica. É terrível saber que determinadas criaturas com quem convivemos não sabem sequer quem foi Carlos Drummond de Andrade.

Um poema de amor é-me dado pela leitura, pela declamação, sem nada me pedir em troca – e que eu nunca mude meu sentimento, nem que eu aprenda de uma vez por todas – e isso transporta um certo horror, um impulso para desligar o telefone na cara, embora eu seja homem educado. Minha mãe dizia, se você encontrar uma pessoa fora de si, deixa ela lá.

Para o mundo, o mundinho de um ciclo que não existe mais, a pessoa fala coisas como se quisesse deter o outro lado. É impressionante como as histórias surgem de uma hora pra outra.

Como qualquer coisa que existe com expectativas e finalidades, um poema celebra a existência de quem o escreveu.

No poema ´A um ausente´, Drummond diz “Tenho razão para sentir saudade de ti, de nossa convivência em falas camaradas, simples apertar de mãos, nem isso, voz modulando sílabas conhecidas e banais, que eram sempre certeza e segurança”

Essa certeza que o poeta traz, poucos sentem. E que no encanto, que nela se torna inseparável, mas a precariedade do vínculo e do seu dirigir-se a qualquer um, a «nós», uma indeterminação subentendida no enunciar uma conversa que é feita para não provocar sequer o mal nunca necessário, te dana!

Por isso, a ligeireza de uma conversa da vida alheia, me aparece como um oficio que é mais que uma mentira, é uma violentação.

No entanto, a ligeireza só pode vir da armadilha através da qual a palavra se faz exigência agora na minha escrita: armadilha que se desloca sabotando até o chão em que pisamos.

É do ser humano ser cruel tal ou o tal, e abrindo o espaço do não recomeço para dizer coisas sobre pessoas que sequer conhecem.

O escrever da velha amizade, rescrevendo outra, digo descrever que seja uma resistência ao atrevimento, coragem para enfrentar, deixa pra lá. Help!

Kapetadas

1 – Puxa vida! Envelhecimento é bicho paciente e não larga do osso.

2 – O mistério da origem do universo não nos incomoda; o que perturba é não sermos o centro dele.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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