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Costumo dizer que mais danoso que o uso indiscriminado e abusivo de drogas, lícitas e ilícitas, no Brasil e em quase todo o mundo, é o modelo cultural consumista adotado pela sociedade contemporânea. Somos todos induzidos pela mídia, que por sua vez é patrocinada pela indústria e empresas em geral, a consumirmos de tudo e cada vez mais, independente de estarmos precisando ou não daquele objeto, roupa, alimento, bebida e ou medicamento.
O consumo abusivo, seja de alimentos, bebidas alcoólicas ou não, medicamentos etc., não é saudável. Aquelas pessoas que para tudo recorrem aos medicamentos, tentando remediar até mesmo um simples e passageiro desconforto ou sentimento desagradável, em geral não são mais saudáveis que aquelas que não consomem ou que quase nunca usam tais drogas.
Essa mania da sociedade moderna de apelar ao uso de alguma substância para remediar até as dores da alma, deve-se principalmente a fatores como: a voracidade comercial dos grandes laboratórios, a máquina da propaganda da indústria farmacêutica, a cultura de automedicação de muito(a)s usuário(a)s aliada à conhecida “empurroterapia” do(a)s balconistas das farmácias e drogarias que recebem prêmios dos laboratórios para atingirem as metas de venda, e também à ação de alguns médicos, que prescrevem medicamentos de forma pouco criteriosa. O resultado de tudo isto é o surgimento de um número cada vez maior de dependentes de drogas legais – terapêuticas, a denominada fármaco-dependência.
É comum nos lares brasileiros a presença de uma pequena farmácia onde são guardados vários medicamentos que são consumidos sem nenhum critério médico científico. Nessa “mini drogaria” particular, comumente são mantidos desde analgésicos, ansiolíticos, anti-inflamatórios, meta-anfetaminas para conter o apetite etc.
O Brasil, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, OMS, tem dezenas de milhares de rótulos de medicamentos com variações de milhares de substâncias. Certamente um exagero, considerando a lista de medicamentos essenciais para o bem-estar da OMS, que é de apenas 300 itens aproximadamente. No nosso país há uma farmácia ou drogaria para cada três mil habitantes. Isto é mais que o dobro do recomendado pela OMS. Há mais pontos de venda de remédios no Brasil que de pão, por exemplo.
Essa não é uma realidade apenas do Brasil, mas também de grande parte do mundo ocidental. E tudo isto nos mostra um cenário em que os laboratórios estão cada vez mais saudáveis financeiramente, mas a imensa maioria dos habitantes do mundo permanece doente.
Os maiores investimentos da indústria farmacêutica se concentram especialmente no desenvolvimento de medicamentos para doenças consideradas crônicas, como a diabetes e os problemas cardiológicos, por exemplo, pois são drogas que o paciente vai precisar consumir até o fim da vida.
Num passado recente, o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, CREMESP, acusou os laboratórios de intervirem de forma abusiva no setor médico. Segundo o referido presidente, os grandes laboratórios frequentemente patrocinam congressos, viagens internacionais, jantares etc., para médicos, contribuindo com isto para certa dependência destes profissionais com os seus patrocinadores, e tal fato tem contribuído para transformar alguns congressos médicos em apenas encontros propagandísticos dos laboratórios.
Enfim, precisamos ter consciência que, a maior parte das doenças do ser humano, pode ser curada pela ação do próprio organismo. Segundo o Dr. Daniel Sigulem, professor da UNIFESP, “o que precisa ficar claro é que a ausência de remédios na vida de uma pessoa é uma garantia e quase sempre um sinal maior de saúde do que a presença deles”. Mas esta informação jamais será encontrada na bula de qualquer medicamento.
Portanto, comungo com a fala de uma amiga minha, médica, que me disse o seguinte: “A indústria farmacológica não quer que você morra, mas também não tem interesse que você fique bom”.
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