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Estevam Dedalus é sociólogo, doutor em Ciências Sociais, professor da UEPB, músico e compositor. [email protected]

Save Ferris!

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publicado em 05/05/2026 ás 13h00

Poucas pessoas admitiriam abertamente, pelo temor de parecerem politicamente incorretas: matar aula é uma experiência importante para formação moral, intelectual e cultural de qualquer adolescente.

Não há na história do cinema – acho muito improvável que tenha existido na vida real – um gazeador de aulas mais espetacular, carismático, inteligente e criativo que Ferris Beuller.Personagem principal do filme “Curtindo a Vida Adoidado” do diretor e roteirista John Hughes, de 1985, interpretado por Matthew Broderick.

Numa das varias leituras filosóficas possíveis sobre Ferris Bueller, diria que se trata do arquétipo do gazeador. Seu ideal platônico. Em outras palavras, quando Deus pensou na ideia do gazeador de aulas, em sua perfeição, nasceu Ferris Beuller. Daí que sua essência pode ser encontrada em todos os gazeadores do mundo, de todas as épocas, planetas, galáxias e universos. Em milhões e milhões de experiências vividas.

Ele representaria também um modelo ético, uma maneira como devemos encarar a vida e ser feliz. É verdade que Ferris Bueller não apresenta grandes ideias políticas, mas alternativas práticas para viver a adolescência ao máximo, e invejável habilidade em lidar com problemas típicos dessa fase. Como uma escola repressora, aceitação social, pressões sobre o futuro e o tédio. É importante lembrar o momento histórico que o mundo e os EUA viviam. Época posterior aos movimentos de contracultura e de crise Soviética, em que o capitalismo se afirmava vorazmente.

Muitas vezes ele reage por meio de sutis micro-rebeliões à autoridade. Bueller é hedonista, no melhor e mais profundo sentido do termo. Não lhe escapa, no entanto, reflexões políticas a partir de uma visão individualista, comum ao espírito norte-americano. Em uma das cenas do filme, durante o banho, ele comenta a respeito de uma prova sobre política europeia que vai perder. E diz assim: “não que eu condene o fascismo, ou qualquer outro ‘ismo’. ‘Ismos’ em minha opinião não são bons. Uma pessoa não deveria acreditar em ‘ismo’, ela devia acreditar em si mesma.”

Acho que Bueller e todos gazeadores de aula possam dar boas lições sobre o trabalho e as instituições escolares. Sempre que assisto ao filme, sinto saudades desses momentos – gazear aula é um das melhores experiências escolares. É engraçado como na universidade matar aula não tem a mesma magia como na escola.

Bertrand Russell no seu famoso ensaio O Elogio ao Ócio observa os diversos males produzidos pela crença na virtude do trabalho. Pensamos muito em trabalho ou estamos tão dependentes dele que nos resta pouco tempo para aproveitar a vida. Os norte-americanos, por exemplo, possuem o hábito de trabalhar muito além da conta, por hora e mais horas, mesmo quando já se tem economicamente o suficiente. Ele era defensor da redução da carga horária de trabalho para, no máximo, quatro horas, e do ócio, seja ele criativo ou não. Dizia que precisamos dar mais atenção a atividades não utilitárias, encorajando assim nosso espírito científico e artístico. O que concordo plenamente.

Bob Black, anarquista e advogado norte-americano, é ainda mais radical quando diz que “ninguém nunca deveria trabalhar”. Para ele, e toda uma tradição de pensadores, boa parte dos problemas do mundo é resultado do trabalho; que como não pode ser totalmente abolido, afinal de contas não podemos deixar de fazer coisas, precisa ser revolucionado. Precisamos de mais tempos, diversão, preguiça e criatividade.

Ferris Bueller planejou o dia perfeito, curiosamente fora da escola, com sua namorada e seu melhor amigo. Livre do tédio, da rotina. Visitou uma exposição de arte, assistiu a uma partida de beisebol no estádio, dirigiu uma Ferrari, almoçou num dos melhores restaurantes de Chicago, cantou Twister Should em cima de um carro alegórico durante desfile de rua na cidade, etc. O que, obviamente, seria impossível se estivesse “enjaulado” dentro de uma sala de aula. “A vida passa muito depressa”, diz ele, “se não paramos para curti-la de vez em quando, ela passa e você nem vê!

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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