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Dólar - Euro


Estevam Dedalus
Damos pouca importância à realidade social do dinheiro, ao contrário de seus aspectos econômicos como a circulação, o poder de compra, a unidade de contabilidade e a reserva de valor.
O dinheiro é, antes de tudo, uma criação social, um signo que pode assumir significados diferentes conforme o contexto histórico e cultural. Ele não se confunde necessariamente com o mercado, sendo possível a existência de formas de dinheiro fora da lógica mercantil. Da mesma forma, uma sociedade pode conviver com múltiplos tipos de dinheiro, cada um exercendo funções específicas.
Pesquisas antropológicas mostram que, em sociedades arcaicas, havia sistemas monetários diferenciados. Alguns tipos de dinheiro eram exclusivos para homens ou para mulheres; outros serviam apenas para comprar alimentos ou pagar custos de casamento. Trata-se de uma forma de atribuição de valor bastante distinta daquela que predomina nas economias modernas, revelando que o dinheiro não é universal nem homogêneo, mas construído socialmente.
Se em sociedades chamadas arcaicas o dinheiro já assumia funções diferenciadas, nas sociedades modernas isso não desaparece, mas se reorganiza no interior da vida doméstica. A socióloga argentina Viviane Zelizer tem um trabalho formidável sobre os significados sociais do dinheiro, que pode assumir variados sentidos, usos e limites.
Um caso muito curioso é o dinheiro doméstico. Zelizer conta que nos EUA as mulheres só tinham acesso ao dinheiro de acordo com a “boa vontade” de seus maridos. Nas classes médias, por exemplo, os homens concentravam em suas mãos todo o orçamento da casa; compravam as roupas das mulheres e os utensílios do dia a dia, sem que elas tivessem autonomia de escolha. Enquanto as mulheres de classes mais baixas recebiam uma quantia para fazer as compras do lar.
Sem acesso direto ao dinheiro, as esposas desenvolveram estratégias engenhosas que iam desde economizar nas compras da casa, conseguir notas superfaturadas nos salões de beleza, a pegar dinheiro escondido na carteira dos maridos. Tais comportamentos foram alvo de disputas em tribunais. Numa ocasião, um homem processou a sua esposa para reaver o dinheiro que ela economizou com as compras domésticas. Ele saiu vitorioso. O juiz considerou que o dinheiro não pertencia a ela.
Nas primeiras décadas do século XX, esse problema passou a ter destaque em revistas e jornais, estimulado pela nascente sociedade de consumo. O papel dos meios de comunicação foi muito importante para ajudar a transformar as visões da época. O New York Times, em 1926, fez uma campanha pela adoção de uma mesada para as mulheres, que encontrou forte resistência masculina. Os homens usavam um argumento moral para se opor à introdução de uma mesada, eles diziam que não achavam certo pagar um ordenado para as suas mulheres, porque se assim o fizessem estariam tratando-as como empregadas. O tema repercutiu na imprensa, que defendia que as esposas deveriam ser vistas como companheiras, portanto, como pessoas dignas de compartilharem o orçamento.
Na mesma época, na década de 1920, se levantaram várias vozes críticas à mesada que era encarada como injusta e que precisava dar lugar a uma gestão conjunta e democrática da renda familiar. Essas ideias impulsionaram, aos poucos, uma transformação no mundo doméstico, que passaria a ser gerido pelos casais como uma espécie de conselho de administração que, de acordo com as demandas dos membros da família, e as condições materiais do momento, distribuiriam os recursos financeiros. Segundo Zelizer, esse modelo veio a garantir uma “quantia específica para gastos pessoais, garantida a cada membro da família, sendo considerada como um direito orçamentário e não como uma oferta.”
Outra coisa que Zelizer enfatiza é que o funcionamento da economia doméstica e o acesso ao dinheiro sofre influência da classe social. Não é à toa que mulheres da classe operária despertavam inveja nas mulheres mais ricas. Isso porque elas recebiam dinheiro de seus maridos para cuidar das despesas da casa. A autonomia das mulheres, portanto, era inversamente proporcional ao rendimento da família. Em outras palavras, em certos contextos históricos e sociais, quanto maior a renda familiar, menor a liberdade feminina no acesso ao dinheiro.
A situação das mulheres no mundo rural também chama muita atenção. Um estudo de Margaret F. Byington mostrou que os homens confiavam às suas mulheres as questões financeiras, entregando os seus salários para que elas o utilizassem do modo que achassem melhor. A vida das mulheres, no entanto, só mudará substancialmente quando elas passarem a auferir seus próprios rendimentos, com a entrada no mercado de trabalho e a conquista de uma renda própria.
No fim das contas, o dinheiro nunca é “apenas dinheiro”. Ele define hierarquias sociais e estabelece as nossas possibilidades. No interior da família, talvez mais do que em qualquer outro espaço, podemos observar através dele algo que muitas vezes permanece implícito: quem decide, quem depende, quem pode e quem não pode.
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