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Dólar - Euro


Existe uma ideia filosófica sobre a dominação que pode ser resumida da seguinte forma: “a lei do mais forte é aquela que não precisa ser enunciada”. Um bom exemplo é a figura do pai que garante a obediência do seu filho apenas com o olhar. Ele não necessita bater ou gritar para conseguir o que deseja, seja porque a dominação já foi incorporada psiquicamente pelo filho ou pelo fato do medo da punição condicionar a ação. Em muitos casos, como pensava Michel Foucault, “o poder mais eficaz é aquele que não se apresenta como poder”. Visto como algo natural, portanto, fora da história. Uma realidade independente de nossas vontades, que seríamos incapazes de mudar.
O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou numa coletiva de imprensa, após o ataque à Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores, que “os Estados Unidos provaram que têm o exército mais poderoso, mais letal, mais sofisticado e mais temível… Ninguém pode nos enfrentar, ninguém…”
O que para muitos parece uma afirmação óbvia, pode ser entendida como uma expressão da relativa decadência do império americano. Os ianques se veem diante de um cenário histórico no qual a sua hegemonia está ameaçada. Eles enfrentam na China o mais relevante desafio já imposto ao seu domínio desde a Guerra Fria.
Na última década, os principais pilares do imperialismo estadunidense começaram a ser duramente questionados. Com o fim da União Soviética, os EUA se apresentavam ao mundo como a única potência mundial. O seu poder parecia insuperável, levando-nos a crer que o século XXI seria também de domínio americano. O que muitos ainda não perceberam é que não há nada certo ou inevitável no processo histórico. Em apenas trinta anos, após o fim do socialismo soviético, a China assumiu um inquestionável protagonismo. O país passou a rivalizar com os EUA, ao liderar a corrida tecnológica em vários setores e aumentar exponencialmente o seu poderio militar e econômico.
Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, os chineses possuem 600 ogivas nucleares ativas e o seu arsenal cresce em mais 100 por ano, desde 2023. Até 2030 é possível que eles tenham 1500 mísseis intercontinentais, colocando o país em pé de igualdade com a Rússia e os EUA.
Neste século a China cresceu 7 vezes mais que os EUA no comércio internacional, tornando-se a principal parceira comercial de aproximadamente 140 países. Ela detém cerca de 30% de todas as cadeias produtivas do planeta. O que a coloca na posição de maior exportadora de bens, com uma vasta e sofisticada estrutura logística e de transporte, que funciona a partir de uma verticalização produtiva na qual os seus agrupamentos industriais cobrem todos os estágios de produção.
Após se consolidar como a maior potência industrial da Terra, a China passou atacar o sistema monetário global criando meios que podem, no futuro, solapar a hegemonia do dólar. É importante lembrar que com o fim do padrão-ouro a moeda estadunidense se tornou fiduciária, isto é, sem lastro material, gerando um choque de confiança no mercado. A alternativa encontrada pelos EUA para garantir o poder global do dólar foi estabelecer um acordo estratégico com a Arábia Saudita que depois se estenderia à OPEP.
Basicamente, todas as vendas de petróleo passaram a ser feitas em dólares. Como o petróleo é um insumo básico para os transportes, a energia, a agricultura e a indústria, os países são forçados a adquirir dólares para manter as suas economias funcionando. Por outro lado, os países produtores ficaram obrigados a reinvestir seus excedentes financeiros em títulos do Tesouro americano, em troca de proteção militar.
Nasceu daí o que chamamos de petrodólares, que podemos resumir da seguinte forma: o mundo paga petróleo em dólares, que depois retornam aos EUA para financiar o seu déficit fiscal. O resultado prático é que o Banco Central estadunidense pode imprimir dólares de forma “quase infinita”, gerando déficits gigantescos, impossíveis de serem feitos por qualquer outro país. É por isso que Trump enxerga na possível perda da hegemonia do dólar um acontecimento equivalente a ser derrotado numa Terceira Guerra Mundial.
Assim os EUA tentam evitar que algo dessa natureza ocorra. O dólar como moeda de referência traz vantagens enormes. Ela permite, por exemplo, a exportação de inflação para o resto do mundo, o financiamento militar e as sanções financeiras impostas a Estados e empresas que contrariem os seus interesses.
Historicamente, os líderes políticos e países que tentaram romper com o sistema dos petrodólares sofreram algum tipo de coerção. Foi o caso de Saddam Hussein que acabou morto, enquanto seu país foi destruído depois de passar a vender petróleo em euros; com a Líbia de Gaddafi que propôs uma nova moeda lastreada em ouro; o Irã que busca meios alternativos ao dólar e a Venezuela que vende seu petróleo em yuan (moeda chinesa).
O ataque dos EUA à Venezuela não se restringe à pilhagem imperialista do petróleo, é também uma forma de impedir que esse recurso continue sendo vendido em moeda chinesa, colocando em risco o sistema dos petrodólares. Há ainda uma percepção interna nos EUA que o país está perdendo influência em diferentes partes do planeta, em especial na Ásia. A América Latina é encarada como um pilar da dominação americana. Uma área de influência que não pode escapar ao controle, mas que a cada dia vê sua economia se entrelaçar profundamente com a da China.
O medo dos EUA fez com que o governo Trump reatualizasse a Doutrina Monroe, que se expressa no lema: “a América para os americanos”. A ideia é neutralizar a China na região reforçando a presença estadunidense, numa tentativa de assegurar o acesso a mercados e a recursos estratégicos. Os Estados latino-americanos e seus governos estão sob a ameaça militar brutal de uma superpotência que age de modo cada vez mais selvagem por medo de perder a sua hegemonia. Pela primeira vez na história, a América do Sul sofreu um bombardeio militar direto e aberto pelos EUA.
O imperialismo não esconde mais os seus reais interesses em discursos sobre a defesa dos direitos humanos e da democracia. Ele é cru, sujo, franco, abjeto, direto e impiedoso. A face nua de um capitalismo cruel. O que a declaração de Trump à Fox News deixa muito claro: “Pensem no que fizemos: tomamos o controle de um país inteiro. Vamos tornar o país forte e bom, e, a longo prazo, vocês poderão votar e eleger alguém de quem gostem. O petróleo que tomamos, levamos petróleo no valor de US$ 4 bilhões em um único dia. E isso vai aumentar. Vamos reconstruí-lo. Todas as grandes petrolíferas estão entrando. Elas vão ganhar muito dinheiro.”
Eles não medirão esforços para garantir os seus interesses, mesmo que isso implique a completa destruição da ordem institucional construída no pós-guerra. A ONU está profundamente esvaziada de legitimidade, assim como o direito internacional. Isso reforça algo que Eduardo Galeano já havia enunciado: a comunidade internacional é um clube de banqueiros, comerciantes e guerreiros. Um palco onde os Estados Unidos fazem teatro. Ou como também nos alertou Mao Tsé-Tung: “o poder nasce da ponta do cano de um fuzil”, o que nesse caso se expressa na prática por meio de bombas atômicas, porta-aviões, drones, submarinos nucleares e um vasto arsenal tecnológico militar.
O sistema internacional expõe cada vez mais sua face selvagem, por décadas disfarçada por um verniz civilizatório construído no pós-guerra. Vivemos num mundo marcado pela insegurança permanente, pela desconfiança e pela primazia da força sobre qualquer princípio normativo. O império que agoniza, aliado a um capitalismo em profunda crise produziram um cenário de todos contra todos, que reafirma a máxima hobbesiana de que o medo e a violência estruturam a ordem.
Fica claro que os EUA estão dispostos a tudo para manter a sua hegemonia: matar pessoas inocentes, bombardear países, promover golpes de Estado, impor sanções econômicas e até provocar uma terceira guerra mundial. O que não é nada animador, especialmente se recordarmos o que disse Albert Einstein: “Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus”. Temo, porém, que ele tenha sido muito otimista.
[1] Estevam Dedalus é doutor em Ciências Sociais e professor da Universidade Estadual da Paraíba.
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BOLETIM DA REDAÇÃO - 16/12/2025





