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Há momentos na vida que fazemos indagações e não encontramos respostas convincentes que satisfaçam a nossa curiosidade. Por que determinadas pessoas tão boas, corretas, têm em sua trajetória tanto sofrimento? Parece que seu caminhar é tão difícil que nos dá a impressão que estão passando por tantos percalços como se fossem algo para purificá-los e poder ser útil a outros em verdadeiro despojamento de si mesmo. Por mais que medite sobre os fatos não encontro explicações. Então coloco que só Deus é o Senhor sabedor de todas as coisas e Ele se coloca no imponderável e sem questionamentos.
Conheci Victor na aula de hidroginástica, um senhor simpático e alegre. Era amigo e admirado por todos os colegas. Isto durante muitos anos e só agora fui sabedora da sua história de vida.
Victor casou-se com Sueli, mulher que conheceu na adolescência, quando iniciaram o namoro. Tudo era encantamento tanto que se casou muito cedo, com 21 anos, e ela com 18. Com um ano de casada engravidou do primeiro filho. Com dois anos veio o outro. Eles são muitos próximos um do outro. No início do casamento, nos primeiros 5 anos, o clima em seu lar caminhava bem, a esposa não trabalhava. O salário que Victor ganhava era bom, dava perfeitamente para suprir as necessidades da casa, das crianças e dela. Porém Sueli não se achava satisfeita. Victor pensou que a falta de um trabalho e o peso da reponsabilidade da maternidade na vida de Sueli, converter-se-ia em empecilho, pois desejava sair, divertir-se, ir à festa e na presente situação não era possível, pois, teria que ter responsabilidade com a casa e as crianças. Porém, mesmo assim as vezes saia com amigas que arranjou no bairro. Falava que era apenas brincadeira entre amigos. VIctor a amava verdadeiramente. E com esse comportamento ela começou a falhar em casa. Ao chegar do trabalho constatava que as crianças não comiam direito. Ele ainda teria que fazer comida para ele e os filhos. Neste contexto Victor achou por bem arranjar uma pessoa para cuidar da casa e das crianças. Com essa providência tomada, foi o que ela queria. Não parava em casa, vivia na rua, com atitudes de irresponsabilidade. Quem passou a cuidar da casa e das crianças foi a senhora que ele contratou como empregada. A situação tornou-se problemática a ponto de ficar insustentável. Um dia recebeu uma carta contando dos procedimentos da esposa que estava lhe traindo e fazendo ele de palhaço, comportamento realizado sem a menor cerimônia e respeito. A carta contava todos os detalhes, fornecendo as coordenadas. Um dia, quando ela saiu de casa a seguiu e a pegou. Não fez nenhuma violência, conversou com ela que cada um devia seguir seu destino e disse, se quisesse ficar com os filhos ele abdicava porque ela era a mãe e ele não fazia questão, comprometer-se-ia de não deixar faltar nada às crianças, mas mesmo assim, ela recusou-se dizendo: “Fique com seus filhos”. Demonstrou nenhum sentimento materno e total desapego, como se os filhos só fossem do esposo, um com 8 anos e o outro com 10. Saiu de casa e viajou para São Paulo. Ele ficou triste e desolado, só com os filhos sofrendo a amargura da separação de um amor que pensava ser eterno. Era uma dor que tomava sua alma sendo muito difícil superar aquele momento. Parecia que o mundo havia desabado. Olhava para um lado e para o outro e não via uma solução. Sueli era o grande amor de sua vida. O tempo passou e foi impondo a Victor uma acomodação, pois não tinha como reverter e havia necessidade de enfrentar a vida e dar continuidade. Os filhos ainda precisavam de sua assistência.
Dois anos se passaram. No trabalho havia uma moça que lhe chamava atenção, conversava muito com ela sobre a problemática que estava vivendo e ela paciente lhe ouvia. Ele achou que também ele o atraia. Namoraram, ainda um tempo para se conheceram bem e resolveram casar. Gorette era mulher virtuosa, muito educada, delicada e de uma bondade e paciência com as crianças como se fosse sua mãe. O que deixava Victor feliz em ver seus filhos bem tratados com amor como realmente uma mãe é para seus filhos. Ela ajudou muito na criação deles que a respeitavam e tinham por ela muito carinho. Cresceram e ficaram adultos estudaram e começaram a trabalhar. Um casou-se e outro já bem empregado resolveu morar sozinho. Gorette cumpriu sua missão que foi terminar de criar os filhos de Victor que adotou como seus também. O casal vivia em plena harmonia, foi quando Gorette apareceu com câncer de pâncreas, muito agressivo e que não teve condições nem de tratamento que prolongasse sua vida. Em menos de um ano ela veio a óbito. Quem cuidou da esposa foi ele, na época ainda trabalhava e foi uma luta, pediu licença para poder dar a assistência que ela merecia. E diz: “o que pude fazer por ela eu fiz, para lhe dar o conforto. Dei tudo de mim e o que estava ao meu alcance”. Victor, que a princípio casou sem muita paixão, pois ainda guardava resquícios de sentimento sofrido do amor que viveu. Achou o casamento com Gorette como convivência pois iria contar com a sua ajuda na assistência aos filhos e aprendeu a amá-la, pois a sua bondade e dedicação por eles demonstrada, o cativaram. Viúvo, ele voltou à solidão, mais uma vez. Viveu com Gorette -por 10 anos de paz e harmonia com muito amor e com ela experimentou o amor correspondido de forma inteira, física e espiritualmente. Foi feliz de maneira completa. Ele dedicou-se a ela assistindo-a na sua enfermidade até a sua finitude. Novamente, se encontrava sozinho e muito triste. O que o acalenta é uma netinha, fruto do casamento do filho mais velho, que preenche um pouco as lacunas de sua vida.
Pouco tempo após a perda de sua esposa, o seu filho mais novo, em uma brincadeira com amigos, em uma piscina, foi dar uma cambalhota no mergulho, bateu a cabeça na borda, sofreou um trauma, na cervical que o levou a ser tetraplégico. Ficou muitos dias no hospital e como morava só, Victor, levou-o para morar com ele. Em seu trabalho, já tendo tempo suficiente solicitou aposentadoria. Hoje, vive para seu filho paraplégico 24 horas. Demonstra dedicação e muita paciência, já foi com ele para outros centros mais desenvolvidos, aqui no Brasil e no exterior, e ele tem apresentado pequenos avanços. Já leva comida à boca pois antes não fazia. Victor tudo faz para adaptá-lo e integrá-lo no ambiente físico e social, sempre o incentivando: “Você pode… tente. Você consegue “. E assim, participa das sessões de fisioterapia e com isso vai ocupando sua vida. Em momento nenhum se queixa. Acha que veio a esse mundo para cumprir uma missão e encontra-se feliz e resignado.
Vejam: há tantos anos conhecendo Victor, não era capaz de pensar que por trás daquele senhor simpático e alegre existia uma história de vida como a sua. Ao tomar conhecimento fiquei ainda mais o admirando e vendo como ele tem o poder de superação e resiliência para enfrentar as vicissitudes que a vida lhe aprontou. Parabéns! A Victor, que através de sua história, nos deu várias lições.
Profª. Emérita da UFPB e membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba (AFLAP)
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