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Graduada em direito e pós graduada em direito criminal e família, membro da academia de letras e artes de Goiás, tenho uma paixão pela escrita Acredito no poder das palavras para transformar realidades e conectar pessoas

O ódio travestido de amor

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publicado em 03/03/2026 ás 08h20

No Dia da Mulher, flores são entregues. Sorrisos são ensaiados. Discursos são decorados com palavras bonitas que, por um dia, fingem mudar o mundo. Não é assim, viu?

Algumas não estão mais aqui para recebê-las.

Vidas interrompidas.

E não foi o destino.
Não foi o acaso.
Não foi um “crime passional”, como insistem em suavizar.

Foi escolha.
Foi poder.
Foi controle.
Foi ódio travestido de amor.

Foi feminicídio. Palavra gasta, palavra maldita e ninguém faz nada

Há um silêncio que não é ausência de som.
É ausência de justiça.

Ele mora nas paredes das casas onde vizinhos ouviram gritos e aumentaram o volume da televisão.
Ele se esconde nos corredores frios das delegacias onde a mulher chegou tremendo… e saiu desacreditada.
Ele respira dentro de uma sociedade que ainda pergunta:
“Mas o que foi que ela fez?”

A divina hipocrisia é essa: uma sociedade que entrega flores em março… e coleciona ausências o resto do ano.

Chamam de exagero quando ela grita.
De louca quando ela insiste.
De culpada quando ela apanha.
E de tragédia quando ela morre.

Mas tragédia é o que não pode ser evitada.
E nós sabemos — todos sabemos — que poderia…

Quantas vezes ela avisou?

Quantas vezes ela tentou sair? Fugir?

Quantas vezes foi desacreditada, diminuída, devolvida ao próprio risco com um “volte para casa e tente conversar”?

Conversar com quem já decidiu ferir não é diálogo.
É sentença.

E mesmo assim, ainda perguntam: por que ela não saiu antes.

Como se sair fosse simples.
Como se não houvesse medo, dependência, filhos, ameaças, culpa, vergonha…
Como se o mundo lá fora fosse mais seguro do que o inferno que ela já conhece.

A verdade é desconfortável por isso poucos a encaram: não são apenas mulheres que estão sendo mortas.
São histórias interrompidas por uma cultura que ainda tolera o domínio disfarçado de cuidado.

Enquanto houver quem diga
“ele fez isso porque amava demais”,
continuaremos enterrando mulheres em nome de sentimentos doentes.

Amor não mata.
Posse mata.
Controle mata.
Silêncio mata.

E a indiferença… termina o serviço.

No  Dia da Mulher, não me ofereçam flores sem consciência.
Não me celebrem com frases prontas enquanto ignoram as ausentes.

Honrar mulheres não é romantizar sua força é garantir que elas não precisem ser fortes o tempo todo para sobreviver.

É escutar quando elas dizem “tenho medo”.
É agir antes que o medo vire luto.
É não duvidar.
É não minimizar.
É não justificar.

Porque toda vez que uma mulher morre,
não é só ela que se vai.

Vai um futuro.
Vai uma versão do mundo que poderia ter sido mais justa.

E fica — sempre fica —
a pergunta que ninguém quer não quer calar?

Até quando?

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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