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Jamais pensei a merda como um problema metafísico até a leitura do romance A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera. Antes, ela não passava de matéria fétida e inconveniente que, graças ao processo civilizador, nossos intestinos passaram a expelir em privadas ligadas a canos de esgotos invisíveis, empurrada pela força das descargas d’água, ainda que capaz de igualar homens e animais numa mesma condição.
Em relação à alimentação, sua antítese, não foi difícil perceber questões óbvias como o fato de que “a vida se alimenta de vida” e os sofrimentos impostos aos animais decorrentes de uma alimentação carnívora. Por que devemos matar para viver? Esse sofrimento é aceitável e justo? Acrescente-se que a gula, aquele desejo implacável de comer além da conta, figura entre os sete pecados capitais, o que leva a outra discussão moral sobre o modo como comemos.
Voltemos à merda. Foi apenas com a ajuda de Milan Kundera que passei a observar a incompatibilidade entre a merda e Deus, bem como suas implicações para a antropologia cristã. O autor apresenta duas alternativas: a) Deus tem intestinos e se parece com os homens; b) não tem intestinos e não se assemelha aos homens. Por mais estranha e cômica que essa discussão possa parecer hoje, ela é muitíssimo antiga e foi encarada com seriedade por alguns eminentes teólogos.
No século II, Valentino, Grão-Mestre da Gnose, dizia que “Jesus comia, bebia e não defecava”. Outra ideia importante, segundo Kundera, para pensarmos uma teodiceia da merda, é encontrada no debate acerca da virgindade de Adão e Eva. Basta lembrar que São Jerônimo, no século IV, afirmava que o primeiro casal humano não teve relações sexuais no paraíso. Doutrina que o teólogo Escoto Erígena discordaria no século IX. Curiosamente, ele aceitava a ideia de relações sexuais no paraíso, mas não admitia, diz Kundera, que houvesse excitação, apenas volúpia. Para isso, alegava que Adão era capaz de erguer seu órgão sexual da mesma maneira que levantava pernas e braços.
Daí, então, é que poderíamos concluir, segundo Kundera, que durante a estadia de Adão e Eva no paraíso eles não defecavam ou sentiam asco das próprias fezes. Só com a expulsão do Éden e o sentimento de vergonha é que o homem teria descortinado sua condição repulsiva: “o homem passou a esconder aquilo que o envergonhava, e, no momento em que afastava o véu, era ofuscado por uma grande claridade. Assim, logo após ter descoberto a imundície, descobriu também a excitação. Sem a merda (no sentido literal e figurado da palavra), o amor sexual não seria como o conhecemos: acompanhado por um martelar do coração, e pela cegueira dos sentidos”.
Deixamos de lado a dimensão metafísica do problema. A sociologia pode oferecer uma leitura interessante sobre nossa aversão à merda e outros fluidos corporais. Uma leitura indispensável para compreendermos esse fenômeno é o livro O Processo Civilizador de Norbert Elias. Nele descobrimos como ocorreu uma mudança radical em nossos padrões emocionais e de limpeza, motivadas por processos de distinção social. Nas cortes, na idade média e em parte da modernidade, era comum que as pessoas defecassem ou urinassem nos corredores dos palácios. Que limpassem as mãos sujas de catarro na mesa ou nas roupas, comessem sem pratos e talheres, e passassem alimentos mastigados de boca em boca.
Um recurso metodológico usado por Elias foi o de analisar livros de etiquetas, meio que revelaria comportamentos e mentalidades da época. O ato de defecar, solitariamente, sem dar à vista dos outros, só aos poucos se generalizaria. Nos regulamentos da Corte de Brunswick, de 1598, lemos as seguintes recomendações: “o individuo não deve, como rústicos que não frequentaram a corte ou viveram entre pessoas refinadas e respeitáveis, aliviar-se, sem vergonha ou reserva, na frente de senhoras ou diante das portas ou janelas de câmaras da corte ou de outros aposentos. Muito ao contrário, todos devem, em todas as ocasiões e em todos os lugares, comportar-se de modo sensato, cortês, e respeitoso em palavra e gesto”.
Mudança cultural que os nossos olfatos agradecem até os dias de hoje!
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