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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: [email protected]

Allyrio e sua fortuna crítica

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publicado em 18/03/2026 ás 07h00
atualizado em 17/03/2026 ás 19h52

 

Hildeberto Barbosa Filho

Organizar as informações e transformá-las em conhecimento é fundamental na constituição do acervo cultural. A pesquisa científica e os estudos monográficos só tendem a ganhar com a ordenação dos materiais, das fontes, do repertório bibliográfico, enfim, dos elementos que estabelecem a riqueza de um determinado objeto de estudo.

Renato César Carneiro, professor de ciências jurídicas e sociais, ensaísta do direito eleitoral e da história das eleições na Paraíba, já com muitos títulos publicados, sabe disso como poucos, se atentarmos para o seu novo livro intitulado Allyrio, o romancista: entrevistas, depoimentos, notícias literárias e fortuna crítica (João Pessoa:  Mídia Gráfica, 2024).

Homem de Patos (PB), assim como o autor de Bolsos vazios, o inquieto e polêmico Allyrio Meira Wanderley, Renato César Carneiro, com este trabalho de organização da cultura literária, presta um valioso serviço à comunidade intelectual e, sobretudo, às novas gerações estudiosas, que desconhecem a frenética intervenção social e estética da ficção allyriana.

Seu foco de interesse, aqui, é o romancista, autor de obras, como Sol criminoso, Os brutos e Ranger de dentes, e não o ensaista demolidor de As bases do separatismo e de Carneiros cinzentos. Esta, uma monografia corajosa e ousada, na medida em que intenta o desmonte crítico e exegético da obra de Gilberto Freyre.

Renato não faz trabalho de crítica literária nem se debruça, equipado por teorias e métodos analíticos, sobre o universo romanesco do escritor patoense. Reconhece seus limites, muito embora, com o criterioso senso de organização e, por outro lado, preocupado em resgatar a memória de seu ilustre conterrâneo, contribua para dar a visibilidade necessária a um dos autores paraibanos mais prolífico e mais relevante. Inclusive, com ressonâncias nacionais, não só pela efetiva presença de seus romances na cena literária, como também pela prática jornalística exercida durante toda a vida e pelo ensaísmo de viés político e ideológico que o tornou figura incômoda e perseguida pela ditadura de Getúlio Vargas.

As entrevistas, os depoimentos, as notícias e a fortuna crítica que o pesquisador rastreia e arruma, neste volume de claras intenções didáticas e pedagógicas, sinalizam para o devido merecimento que a prosa ficcional de Allyrio Meyra Wanderley obteve em meio às circunstâncias históricas e literárias que envolvem a sua trajetória de escritor.

Sol criminoso, por exemplo, foi destacado com menção honrosa em concurso promovido pela Academia Brasileira de Letras, em 1931, tendo, como seus concorrentes, nomes como Rubey Wanderley, Papi Júnior, Ribeiro Couto e José Geraldo Vieira. De outra parte, notáveis da crítica literária de então, a exemplo de Tristão de Athayde, Álvaro Lins e Adonias Filho, se fizeram restrições a certos aspectos de sua prosa romanesca, sobretudo no que concerne ao estrato estilístico, não deixam de apontar, no entanto, virtualidades características de um talentoso romancista.

Se as entrevistas dadas ao jornal O Dia e aos escritores Ascendino Leite e Almeida Fischer nos permitem contactar com o seu pensamento social, ideológico e estético, principalmente com sua personalidade aguerrida e independente, os depoimentos dos amigos e dos pares, por sua vez, revelam a pluralidade de visões que a sua figura irrequieta e irreverente permite, na sua maneira destemperada de ser e agir. Vale a pena, portanto, para termos uma noção, mesmo que ligeira, de como Allyrio Meyra Wanderley se conduzia no meio literário, lermos o que dele dizem um Geraldo Sobral, um Geraldo Carvalho, um Armando Frazão, um Diocleciano Pereira Lima, um José Souto e um Marcos dos Anjos.

Há um tópico da fortuna crítica, observado a cada romance publicado, que pode nos ajudar a compreender melhor o escritor Allyrio Meyra Wanderley. Refiro-me a quase unanimidade de posição conceitual em torno de seus procedimentos estilísticos, como também em torno da ideia de que, por trás do romancista, se movimenta um ensaísta afeito a teses e dogmas de índole marxista. Lá, certo preciosismo apreendido provavelmente na leitura de Euclides da Cunha, com o seu vocabulário exótico, com suas metáforas retorcidas e seus refinados recursos retóricos; aqui, o defensor de silogismos ideológicos e a crítica mecânica e fechada das contradições socias e classistas.

Mesmo assim, insisto. Allyrio Meyra Wanderley precisa ser lido, precisa ser estudado. Um romance, como Bolso vazios, talvez sua realização literária mais equilibrada, na sua tonalidade subjetiva e autobiográfica, mereceria uma recepção maior. O livro de Renato César Carneiro, ora publicado, na sua despretensão e utilidade, parece nos dizer isto. E isto não é pouco.

 

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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