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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: [email protected]

Questionário de Proust

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publicado em 06/05/2026 ás 07h00
atualizado em 05/05/2026 ás 18h43

 

 

Se tenho um aspecto marcante na minha personalidade, diria que é o alheamento e a porosidade, como naquele verso de Drummond. Creio que nasci pronto para ser um fazendeiro do ar.

Nos homens, somente uma qualidade me interessa: a coragem. Digo isto, omitindo outras virtualidades possíveis, porque, desde cedo, aprendi que viver é uma aventura muito perigosa. E só com a coragem se podem enfrentar os desafios do perigo.

Já nas mulheres, aprecio, sobretudo, a criatividade, ingrediente que pode conter elementos variados, como a inteligência, a generosidade e a beleza. Se falo em beleza, levo em conta o complexo indecifrável que junge corpo e alma numa única e mágica tessitura. Não é o todo nem o detalhe. É algo que me escapa e me acalenta.

Minha principal característica reside na fidelidade à palavra dada. Não sou rei, mas costumo cumprir a promessa feita e tenho um respeito quase sagrado pelo que falo, expresso e assino. Não sou cabeça dura, detesto dogmas e ídolos, mas reverencio a palavra empenhada como se cumprisse um ritual inadiável.

Em meus amigos valorizo principalmente o dom da fidelidade, a capacidade de escuta e o senso de humor, na mesma medida de que desgosto, em mim, desse melancólico cansaço metafísico que não me larga, mesmo na hora do encanto e do prazer.

Meu passatempo preferido é ler, cuidar dos meus pássaros, espiar os enigmas que a natureza me oferece e me ocupar com a sabedoria da água que me lava a sujeira do corpo e da alma.

Não tenho ideia da felicidade. Para mim, a felicidade me parece um estado ambíguo, um instante relâmpago que num relâmpago se dissolve, sem deixar vestígios ou ansiedade. Da tristeza tenho ideia, sim. A tristeza me agrada e me fertiliza. Sempre se deixa habitar pelos páramos do poema e tem ternura, serenidade e beleza.

Não sei. Fosse para ser outro, gostaria de ser um José ou um Severino, um homem simples, do campo, criador de cavalos e pastor de nuvens, amador da chuva e presa do espanto de viver.

Não. Não gostaria de morar em Paris, nem em Londres, muito menos em Nova York. As cidades grandes me assustam. Tenho síndrome de pânico diante do tráfego e das multidões. Nasci para morar num pequenino povoado do cariri paraibano. Lugar domado pelo silêncio das pedras.

Minha cor favorita é o azul, em suas múltiplas tonalidades. Sobretudo o azul dos céus agrestes, com sua verdade vazia e perfeita, como diz o poeta. Meu pássaro predileto é o galo-de-campina, em seu canto de corrida e de açoite, em sua plumagem tricolor.

Escritores, amo de coração Dostoiévski. Ele sempre foi o meu planeta iluminado. Como poeta, Fernando Pessoa me preenche, na medida em que se fragmenta em personas diversas e de vozes líricas complementares e complexas. Meu personagem principal é Raskolnikov, de Crime e castigo, e a minha heroína é Natacha, de O idiota. Bach e Beethoven são meus compositores mais queridos, assim como são meus pintores mais queridos Van Gogh e Salvador Dali.

Não tenho herói na vida real nem heroínas na história. Nome de que gosto: Maria. Odeio bajuladores e imbecis. Desprezo figuras históricas como Stálin e Hitler, não admiro eventos militares. Gostaria de tocar violino. Morrer, já morri tantas vezes. Morrer é bom.

Meu estado de espírito atual é de dúvida e esperança e só tenho compaixão pelo defeito da frivolidade. Meu lema é nietzschiano: “O paradoxo só nasce nos grandes espíritos”.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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