João Pessoa, 16 de janeiro de 2026 | --ºC / --ºC
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Tentar refletir ao acaso e sobre assuntos variados, sem se acostar, a rigor, numa disciplina metodológica e num supor teórico diferenciado, constitui um dos traços dos gêneros que chamo de heterodoxos. Diários, confissões, testemunhos, impressões, registros e outras modalidades de escrita podem abrir o leque das possibilidades semânticas, para que o autor ou a autora se disponham a pensar livremente.
Sou dos que apreciam a índole do gênero, de antiga e consolidada tradição, principalmente se, nele, se cristalizam, por um lado, a densidade do pensamento, em sua natureza crítica e instigante no que concerne ao conteúdo abordado, e, por outro, à singularidade estilística que transforma a palavra num corpo vivo e numa experiência estética.
É com estas premissas que leio o livro de Antônia Claudino, intitulado Eu sou Antônia: pulsações (João Pessoa: Editor: Martinho Sampaio, 2025), já assinalado como primeiro volume, o que me faz pressupor que outros virão.
A autora nomeia seus pensamentos de “pulsações”, e isto me parece um termômetro medular de sua escrita ocasional. “A complexidade das coisas”, “O fardo das lembranças”,” O perdão”, “Entre realidade e fantasia”, “A sabedoria do silêncio”, “O coração do poeta”, “A balança cósmica da justiça”, “A magia da conexão”, “A força de ser mulher” e “A religião dos homens” , entre tantos outros, são alguns dos temas explorados pela sua inquietação reflexiva.
Aprecio, em particular, aqueles momentos em que a enunciação se faz mais penetrante, fugindo, assim, ao peso da percepção convencional e ampliando, a seu turno, o viés da compreensão mais sutil e mais criativa. Em “A sabedoria do silêncio”, por exemplo, essa tonalidade se elucida, quando Antônia Claudino afirma:
“A maturidade é a arte de escolher as batalhas. É sentir o peso das palavras não ditas, a urgência de expressar mil pensamentos, e, mesmo assim, optar pela quietude. Não é ignorância, não é fraqueza. É reconhecer a força contida no silêncio, a elegância de saber que nem tudo precisa ser dito. Às vezes, a palavra mais poderosa é a que não escapa à boca”.
O mesmo se diga quando ela relembra, em “O coração do poeta”, que a poesia é isso: “uma ponte entre seres humanos, um convite ao diálogo silencioso entre as verdades mais profundas”.
Este me parece o tom a ser mais cultivado. Sobretudo cultivado numa perspectiva que passe ao largo dos clichês epistêmicos e que faça emergir, da substância das coisas e da corrente dos fatos, a verdade negativa, o avesso revelador. Para isto, os motivos devem se ajustar não somente ao crivo crítico do pensamento, porém, e, sobretudo, ao trato mais exigente da palavra, na sua espessura material e artística. Diria mesmo que este gênero, o gênero heterodoxo, ao misturar realidade e imaginação, poesia e referencialidade, exige um árduo exercício formal na tessitura de sua expressão.
Curioso: o melhor dos textos está fora do corpo editável do livro. Refiro-me a “Um batom e seus significados”. Aqui, mais do que em qualquer outra peça das 150 páginas, a autora comparece inteira, insinuante na costura da frase, entregue aos subterfúgios mentais e ao melhor campo da libido vocabular. Vou citar trechos do texto a título probatório:
“O vermelho não se esconde. Ele não pede licença. Um batom vermelho é mais do que a cor: é atitude. É manifesto. É coragem líquida pronta para atravessar o mundo {…} o vermelho não se limita aos lábios. Percorre a pele, o espírito, a alma”.
Em passos como este, Antônia Claudino, escritora sertaneja, advogada militante, deveria investir com mais ousadia e poeticidade. Somente assim, face a temáticas ambivalentes e a conteúdos imprevisíveis, suas “pulsações”, embora calcadas na lógica incontornável do princípio de realidade, poderiam alcançar os enigmas do princípio do prazer. Esperemos o próximo volume!
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BOLETIM DA REDAÇÃO - 15/01/2026