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É muito comum na cultura do heavy metal a resistência ao novo, o que também pode ser percebido em outros estilos que são variações do rock. Penso que em grande medida isso tem a ver com o que poderíamos chamar de uma “estética da existência”. Em outras palavras: a música, para apreciadores de metal, não é apenas uma música, mas algo que se traduz em um estilo de vida e um modo de ser no mundo, especialmente da juventude.
As novas gerações tendem a se afirmar negando em algum grau as anteriores, o que produz um efeito ameaçador sobre as suas identidades. Quando o movimento do New Metal surgiu no final dos anos de 1990, muitos “metaleiros” torceram o nariz e outros tantos o fazem até os dias de hoje. Esteticamente eles tiraram os solos grandes de guitarras das músicas que marcavam tradicionalmente diversas variações do metal, introduziram elementos da música eletrônica, do rap, da música industrial, deixaram no geral o só menos rápido, e exploraram afinações diferentes dos instrumentos.
Observando as letras do new metal, é possível observar algumas semelhanças com o movimento grunge. O tema da desesperança geracional é bastante recorrente entre ambos os estilos. Mas, se por um lado, bandas como Nirvana, Pearl Jam e Alice in Chains expressavam os problemas geracionais com base na angústia, na apatia, e um certo niilismo existencial; artistas do new metal como Korn, Slipknot, Limp Bizkit exploravam os temas geracionais a partir da raiva e da angústia intensa.
O grunge adotou uma dicção introspectiva de caráter existencialista, enquanto o new metal um tom direto, confessional, traumático e explosivo. Podemos ver isso em letras como “Daddy” e “Falling Away from Me” do Korn que tratam de abuso sexual na infância e do sofrimento psíquico. Já letras como “Crawling” do Linkin Park discutem o problema juvenil com autoestima e o sentimento de inadequação como um reflexo dos efeitos do capitalismo tardio nas décadas de 1990-2000, o aumento do desemprego nos EUA, o bullying escolar, a fragmentação familiar e o enfraquecimento das experiências de caráter comunitário, cada vez mais difíceis de acontecer no mundo do neoliberalismo. As letras têm um apelo maior entre jovens marginalizados das periferias urbanas, ao contrário do grunge que encontrava uma maior recepção nas classes médias.
O new metal não é niilista como o grunge, mas catártico na medida em que canaliza a violência, o ódio e o sofrimento e os transforma esteticamente em energia bruta com potencial dialético de liberdade e destruição. É bastante comum temas sobre a crise das masculinidades, que é trabalhada de forma muitas vezes ambígua. Ao mesmo tempo em que esses artistas deixam transparecer suas vulnerabilidades emocionais, eles assumem muitas vezes valores misóginos.
Do ponto de vista da economia política, os EUA experimentaram um colapso de empregos industriais e o avanço da informalidade, com o neoliberalismo e a transferência de plantas industriais para a Ásia, que começou no final dos anos de 1970 e se agravou nas décadas de 1990/2000. As transformações na estrutura produtiva do país implicou a extinção de milhares de empregos e no empobrecimento das classes trabalhadoras e médias atingindo diretamente a juventude. Isso afetaria os papéis de gênero desempenhados pelos homens da nova geração, impotentes diante das expectativas tradicionais geralmente associadas ao masculino, como prover a família e ser forte e racional.
Por mais que o new metal faça uma crítica à vida no capitalismo tardio, não a faz de uma maneira politizada. Não há um discurso político articulador de um movimento social ou que aponte para alguma ruptura ou ação coletiva. Vemos, assim, uma crítica ao sofrimento e uma organização estética do ódio e da violência diretamente ligada ao indivíduo. O indivíduo ocupa um lugar de centralidade, exteriorizando seus sentimentos através do espetáculo.
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