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Hildeberto Barbosa Filho
Não sou historiador, sociólogo, antropólogo, fotógrafo, pintor. Por isto mesmo coleciono paisagens que pouco cabem na simetria das molduras. Sou dado às palavras, gosto de nomes, rubricas, razões sociais, principalmente quando nomeiam bares e as suas líquidas epifanias.
Vejam bem. Os bares do mundo têm nome como têm nome as coisas que conhecemos e amamos. Pode ser um decote qualquer aberto para o beijo do dragão marinho, uma ponte órfã de margens e destinatários, uma esquina fluvial para as arquiteturas do poema.
Estava no norte de Minas (Minas não há mais!!), e bebia no “Bar Acabe Comigo”. Gostei do nome e comecei a lembrar dos bares por onde andei por esses brasis afora, como diria meu vetusto professor de direito romano.
Numa ilha de Manaus, entre o rio Negro e o Amazonas, bebi no “Bar da Morte”, feito de madeira da selva, aberto sempre ao pôr do sol e às depressões da lua, sem som, solitário, embriagado pelas águas noturnas e pelo aroma dos fenômenos que nunca acontecem.
Dia desse, com Marcos Estrela, andarilho dos agrestes interiores, dividi duas cervejas, meia garrafa de cachaça legítima, com o frio especular do “‘Bar da Neblina”, numa das serranias do brejo paraibano. O brejo se aconchega aos contrafortes da Serra da Borborema e gera a umidade e a alvura de climas superiores, de entidades inomináveis. Bruxos e bruxas lavados pelo perfume dos córregos.
Faz três horas que beberico meu sonho num lugarejo do sertão, dentro do “Bar Apocalipse”, esmiuçando os programas inertes de uma seca secular. O gado magro pasta diante de mim, a cabocla morena, ajaezada, bonita como um topázio, arisca como uma égua árabe, deixa-me, no seu sorriso, um tiquinho de certeza de que vale a pena se perder por ali. O sol nem sempre queima e lacera…
É tarde da noite. Jaguaribe dorme. Estou no “Bar entre a cruz e a espada”. Eu, Magno Meira, Lúcio Lins e Pedro Osmar. O dono, Pierre Malzac, torturado pela ditadura, nos serve montilla com coca-cola. O tempo não é dos bons. Há uma asfixia na atmosfera. O país sofre.. Ali começávamos a sonhar os capítulos de um mundo melhor.
Na minha Comarca, bato o ponto no “Aconchego Bar” e bebo o inesquecível conhaque da infância e da mocidade. Vale, é claro, um Nelson Gonçalves ou a ternura de um Anisio Silva. Depois me vou ao “Bar da Curva”, só para espiar, de longe, a minha casinha branca em riba da serra. Minha Comarca das Pedras é lapidar.
E os bares estão aí, multiplicam-se na alquimia dos nomes fenomenais. “Bar do ex corno”, “ Bar tô no trabalho”, “Bar Faculdade da pinga”, “Bar da felicidade”, “Bar da última dose”, “Bar dos martírios”, “Bar de Deus”, “Bar do orgasmo”, “Bar que nunca fechou”, “Bar da safadeza”, “Bar 69”, “Bar de ninguém”, “Bar microondas”, “Bar Purgatório”, “Bar de Dandara” e “Bar tomei todas”.
São razões sociais, sim, porém, quero crer, sem o travo prosaico da pura mercancia. Por baixo das letras, na porta de entrada, quem sabe, não se inscreve o fabulário das pequeninas tragédias que fazem de seus habitués bichos humanos de verdade. Afinal, cada nome contém uma história.
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