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Estevam Dedalus é sociólogo, doutor em Ciências Sociais, professor da UEPB, músico e compositor. [email protected]

Se Deus é bom, por que o mal existe?

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publicado em 10/02/2026 ás 17h04

Estevam Dedalus

Não é de hoje que vejo, na ideia de um Deus onipotente e essencialmente bom, uma incompatibilidade com a existência do mal. São inúmeros os obstáculos racionais quando tentamos lidar com tais atributos e com o mundo como ele é. Consideremos, por exemplo, que Deus é essencialmente bom e que, sendo assim, nada do que dele derive é mau. Notem que essa ideia o aprisiona numa espécie de lei universal, que o impede de fazer maldades. Ele não seria, dessa forma, onipotente, pois, nesse caso, um Deus que não pode ser mau não é todo-poderoso. Por mais graves que sejam os efeitos morais dessa conclusão, temos que, por ora, admiti-la.

É possível argumentar como fazem alguns teólogos que Deus é capaz de agir com maldade, mas que seu senso de justiça e amor o faz largar mão dessa possibilidade. Esse argumento, todavia, só alcança uma pequena dimensão do problema. Mesmo admitindo que possa Deus agir de maneira boa ou má, o que explica o mal em si? Se tudo que existe é criação divina, o mal também não seria?

Outras dificuldades também devem ser consideradas, sobretudo aquelas ligadas à estrutura do universo e à maneira como a vida na Terra está organizada. Uma crença bastante conhecida é que nosso mundo é o melhor dos mundos possíveis, o que de cara contraria a imaginação. Podemos facilmente imaginar mundos bem melhores que esse. Leibniz ficou famoso por defender essa tese no século XVIII, o que viraria chacota na pena mordaz e inigualável de Voltaire, ao produzir a melhor, a mais bem-humorada e dilacerante crítica, até hoje escrita, contra as ideias do filósofo alemão: Cândido ou o Otimismo.

Não sei você, mas acho muito difícil defender que este é o melhor dos mundos possíveis. Na vida social, há muitas desigualdades e injustiças, que até já foram piores em regimes escravistas ou de servidão do passado. A história humana é a história do sofrimento. Isso se repete a cada novo nascimento, a cada momento histórico. Matamos pessoas que ousem discordar de nossas crenças religiosas e políticas. Matamos quem possui outro tipo de orientação sexual. Matamos aqueles que julgamos diferentes demais para pertencer à “nossa tribo”. Matamos por riquezas materiais. Praticamente todas as guerras contemporâneas foram movidas, sub-repticiamente, pela sofreguidão do lucro. Não conseguimos acabar com a fome, apesar do avanço técnico-científico dos últimos 200 anos. Apenas 1% da população mundial detém 99% de toda a riqueza produzida.

Essas são algumas causas do sofrimento, de caráter social. Mas o mundo natural não é menos cruel. A expectativa de vida no planeta só veio a aumentar substancialmente na segunda metade do século XX; antes, chegava a míseros 35 anos. A natureza também nos impõe uma série de barreiras. Somos seres para a morte e, pelo que sabemos, os únicos que têm consciência disso, o que não deixa de ser, em muitos casos, uma fonte de dor e angústia. Temos fome, adoecemos e envelhecemos. As doenças são aos milhares, muitas delas aterrorizantes. Mesmo com um grande acúmulo de conhecimentos, não há receita para adquirir imunidade. Algumas são genéticas, outras infecciosas, de etiologias variadas. Podem afetar crianças ainda no útero materno, jovens, adultos ou idosos. Estamos também sujeitos a sofrer acidentes que podem afetar o funcionamento normal do corpo ou tirar-nos a vida, como ser atropelado, baleado, fulminado por um raio ou vítimas de grandes catástrofes naturais, como terremotos, furacões ou tsunamis.

Se a vida é dura para humanos, não é menos para os animais, que têm menos capacidade de adaptação e estão desprovidos de recursos técnicos e da racionalidade científica. A ordem natural das coisas os sujeitou a uma cadeia alimentar apavorante. Dos micro-organismos até as formas de vida mais complexas, todos estão submetidos, estruturalmente, a uma luta cruel pela sobrevivência. Certos animais já são equipados biologicamente com armas como venenos, garras, dentes afiados, estômagos apropriados para a alimentação carnívora, capacidade de camuflagem. Qual o sentido da existência dos vírus, tênias, piolhos e outros parasitas no melhor dos mundos possíveis? Essas coisas não combinam com a ideia de um mundo perfeitamente projetado, mas com um processo evolutivo cujo único senhor é a adaptação.

Diante desse quadro, a tentativa de conciliar a existência do sofrimento com a ideia de um mundo racionalmente ordenado ou moralmente perfeito torna-se profundamente problemática, o que nos conduz diretamente a um dos paradoxos mais conhecidos da história da filosofia, enunciado na Antiguidade por Epicuro, que até os dias de hoje parece insuperável. Ele diz assim: “Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então, não é onipotente. É capaz, mas não deseja? Então, é malevolente. É capaz e deseja? Então, por que o mal existe? Não é capaz e nem deseja? Então, por que lhe chamamos Deus?”.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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