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Francisco Leite Duarte é advogado tributarista, auditor-fiscal da Receita Federal (aposentado), professor de Direito Tributário e Administrativo na Universidade Estadual da Paraíba, doutor em direitos humanos e desenvolvimento. Na Literatura, publicou os romances “A vovó é louca” e “O Pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de agosto”, um livro de memórias (“Os longos olhos da espera”), e dois livros de crônicas.

Cem noites Tapuias

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publicado em 07/02/2026 ás 12h48

 

Hoje, não sei, mas nos anos setenta não havia bibliotecas em Uiraúna. Se havia, não lembro. No entanto, em 1976, descobri, no bairro Cristo Redentor, um museu, algo muito modesto, próprio de uma cidade do alto sertão da Paraíba, com, na época, menos de 5 mil habitantes em sua zona urbana.

Não sei se por iniciativa da prefeitura ou da Paróquia Jesus Maria e José, o museu foi instalado ao pé da estátua do Cristo Rei. Emprestava livros. Pasmem, que evolução, que evolução!

Meus quinze anos de isolamento ao pé da serra do Desterro, ávidos por novidades, fizeram uma ficha de inscrição e sorriam felicidades. Doravante, toda sexta feira, após as aulas do Colégio Estadual, eu voltava, a pé, para o sítio, com um livro emprestado no bornal da curiosidade.

“Cem noites Tapuias”, o primeiro deles. Cheguei em casa, por volta das 16 horas. Como passara a semana na cidade, meu cotidiano exigia algumas providências, por isso, ainda que ansioso, dei um cheiro no pescoço do riacho Pé de serra, volteei o curral para ver o bezerro da vaca manhosa, inventariei as brincadeiras saudosas que eu havia deixado chorando por mim desde à segunda-feira à manhãzinha.

Lá em casa não havia televisão, apenas o costume do lugar e um rádio velho de pilha que quase sempre não funcionava. Dormia-se cedo, 20 horas e olhe lá. Dormi ansioso. Acordei-me com o canto do galo Mavioso, mãe no terreiro da casa, já dando milho às suas galinhas alvoroçadas e famintas.

Em 1976, não havia luz elétrica lá em casa. As páginas não lidas durante o dia, foram vencidas à noitinha, à luz de lamparina. Sofri com as aventuras do garoto Quinquim, encantei-me com e pelas histórias contadas pela professorinha, raptados pelos xavantes. Meu Deus, que mundo eu descobrira!

À manhã, nem me levantei da rede. Debaixo dela, o livro. Quinquim e sua professora raptados… Meu coração batia forte, olhei bem a capa, localizei a página em que parara a leitura do dia anterior, segui absolutamente transformado.

Na outra semana, “Meu pé de laranja Lima” apresentou-me a história de Zezé. Doravante, um bom tempo dos meus dias ficaram encantados.

@professorchicoleite

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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