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É formado em Direito pela UFPB e exerce funções dedicadas à Cultura desde o ano de 1999. Trabalhou com teatro e produção nas diversas áreas da Cultura, tendo realizado trabalhos importantes com nomes bastante conhecidos, tais como, Dercy Golcalves, Maria Bethania, Bibi Ferreira, Gal Costa, Elisa Lucinda, Nelson Sargento, Beth Carvalho, Beth Goulart, Alcione, Maria Gadu, Marina Lima, Angela Maria, Michel Bercovitch, Domingos de Oliveira e Dzi Croquettes. Dedica-se ao projeto “100 Crônicas” tendo publicado 100 Crônicas de Pandemia, em 2020, e lancará em breve seu mais recente título: 100 Crônicas da Segunda Onda.

Suspense na Brava

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publicado em 08/02/2026 ás 15h37

O mar da Praia Brava em Florianópolis costuma ser sinônimo de adrenalina para surfistas e status para veranistas. Mas, naquele verão de 2026, o azul profundo do Atlântico decidiu devolver algo que a terra tentava esconder.

Um colecionador de conchas, caminhando ao amanhecer, encontrou o que pensou ser uma água-viva ressecada. Ao se abaixar, o estômago revirou: era uma orelha esquerda, decepada com uma precisão cirúrgica que faria um anatomista invejar.

Em uma semana, o número saltou para três dúzias.

A contagem macabra transformou o burburinho dos beach clubs em um silêncio sepulcral. Trinta e seis orelhas. Diferentes formatos, algumas com pequenos brincos de argola, outras com o bronzeado típico de quem passa o dia sobre uma prancha.

O laudo preliminar do IML de Florianópolis caiu como uma marreta sobre as famílias e autoridades da região:

• Idade estimada: Entre 14 e 18 anos.

• Causa: Corte vital (feito enquanto as vítimas ainda respiravam).

O terror na Brava tinha uma assinatura cruel: o agressor não matava ninguém; ele queria ensurdecer o futuro com cada “orelha” arrancada.

As famílias dos condomínios de luxo e das comunidades próximas agora viviam em uma simbiose de pânico. Adolescentes que antes enchiam as areias com música, baderna, bebedeira e risadas estavam trancados atrás de portões eletrônicos. No entanto, o mistério persistia: não havia registros de desaparecidos ou decepados para fechar a conta.

De quem era cada orelha? Se ninguém sentia falta dos jovens, quem eram eles?

Em uma certa noite, o vento Nordeste soprava forte, trazendo o cheiro de sal e algo metálico. Marcos, um pescador veterano que conhecia cada fenda das pedras, observava o horizonte como de costume à espera da lua cheia, quando, de repente, uma lancha azul escuro, sem luzes de navegação, sem barulho de motor se aproximara. Seis homens altos de preto com um adorno de cachorro na cabeça e adagas na mão desceram da lancha, certamente à procura de uma suposta nova vítima.

O suspense atingiu o ápice no outro dia da visita dos “homens-cachorro” quando a trigésima sétima orelha apareceu.

Diferente das outras, ela não estava na areia. Foi encontrada pregada na porta da guarita do condomínio Água Marinha – um dos mais concorridos da orla. Junto dela, um bilhete escrito em papel impermeável: “Eles não ouviam os conselhos. Agora, não precisam ouvir mais nada.”

A Praia Brava, agora vazia, está mais linda, suas ondas parecem chicotes contra as pedras. A placa “vende-se” está por todo lado… O mistério permanece enterrado no fundo arenoso, e cada adolescente que caminhava pela orla sente um calafrio involuntário, levando a mão à lateral do rosto para conferir se o que é seu ainda lhe pertence.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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