João Pessoa, 31 de agosto de 2025 | --ºC / --ºC Dólar - Euro
O sumiço foi na calada da noite, sem alarde. A crônica, acostumada com o movimento dos dias e o ruído das cidades, sentiu primeiro um silêncio estranho, uma ausência que não era a da página em branco. Era um silêncio que pesava, que tinha a densidade de um adeus. E a crônica, essa senhora de idade que vive nos jornais, nas revistas e, hoje em dia, nas telas, soube: o cronista partiu.
O tal cronista escreve sobre a chuva, o trânsito, o cachorro que late na vizinhança, o cronista de histórias pequenas, fatos gigantes, de causos desimportantes que, de repente, viram a coisa mais importante do mundo.
Esse cronista, ela sabia, existiria para sempre, pois está encarnado em todos nós.
Aquele cronista de olhar atento, que percebia a vida nas entrelinhas, que tirava do cotidiano um sorriso, uma ironia fina, uma melancolia discreta. Aquele cronista que, na verdade, era a própria crônica, com corpo, alma e um jeito de falar manso.
A crônica ficou triste com o desaparecimento carnal de Luis Fernando Veríssimo. Porque, de certa forma, ela se sente mais órfã. Ele a tinha feito gente, a tinha ensinado a rir de si mesma, a tinha levado a conversar com seus leitores como se estivessem ou na mesa de um escritório, ou na mesa de bar.
Com ele, a crônica aprendeu a ser mais do que um gênero literário, a ser um jeito de ser, uma maneira de encarar a vida sem levar tudo muito a sério: “Marido de parteira dorme do lado da parede”.
Ele se foi, mas deixou para ela um legado de risadas e de reflexões, de candura e de inteligência em cada linha que se escreve sobre o trivial: “Hay mil regras pra comê, mas nenhuma pra cagá.” Em cada observação, transforma o simples em sublime: “Mais nervosa que gato em dia de faxina”.
Ele não está mais aqui, é verdade, mas sua crônica, a sua essência, continua, mais viva do que nunca, observando Bagé, Taubaté, o gaúcho, o brasileiro, o mundo inteiro, de preferência, sorrindo.
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BOLETIM DA REDAÇÃO - 27/08/2025