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É formado em Direito pela UFPB e exerce funções dedicadas à Cultura desde o ano de 1999. Trabalhou com teatro e produção nas diversas áreas da Cultura, tendo realizado trabalhos importantes com nomes bastante conhecidos, tais como, Dercy Golcalves, Maria Bethania, Bibi Ferreira, Gal Costa, Elisa Lucinda, Nelson Sargento, Beth Carvalho, Beth Goulart, Alcione, Maria Gadu, Marina Lima, Angela Maria, Michel Bercovitch, Domingos de Oliveira e Dzi Croquettes. Dedica-se ao projeto “100 Crônicas” tendo publicado 100 Crônicas de Pandemia, em 2020, e lancará em breve seu mais recente título: 100 Crônicas da Segunda Onda.

Vero, Verissimo

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publicado em 31/08/2025 ás 15h23

O sumiço foi na calada da noite, sem alarde. A crônica, acostumada com o movimento dos dias e o ruído das cidades, sentiu primeiro um silêncio estranho, uma ausência que não era a da página em branco. Era um silêncio que pesava, que tinha a densidade de um adeus. E a crônica, essa senhora de idade que vive nos jornais, nas revistas e, hoje em dia, nas telas, soube: o cronista partiu.

O tal cronista escreve sobre a chuva, o trânsito, o cachorro que late na vizinhança, o cronista de histórias pequenas, fatos gigantes, de causos desimportantes que, de repente, viram a coisa mais importante do mundo.

Esse cronista, ela sabia, existiria para sempre, pois está encarnado em todos nós.

Aquele cronista de olhar atento, que percebia a vida nas entrelinhas, que tirava do cotidiano um sorriso, uma ironia fina, uma melancolia discreta. Aquele cronista que, na verdade, era a própria crônica, com corpo, alma e um jeito de falar manso.

A crônica ficou triste com o desaparecimento carnal de Luis Fernando Veríssimo. Porque, de certa forma, ela se sente mais órfã. Ele a tinha feito gente, a tinha ensinado a rir de si mesma, a tinha levado a conversar com seus leitores como se estivessem ou na mesa de um escritório, ou na mesa de bar.

Com ele, a crônica aprendeu a ser mais do que um gênero literário, a ser um jeito de ser, uma maneira de encarar a vida sem levar tudo muito a sério: “Marido de parteira dorme do lado da parede”.

Ele se foi, mas deixou para ela um legado de risadas e de reflexões, de candura e de inteligência em cada linha que se escreve sobre o trivial: “Hay mil regras pra comê, mas nenhuma pra cagá.” Em cada observação, transforma o simples em sublime: “Mais nervosa que gato em dia de faxina”.

Ele não está mais aqui, é verdade, mas sua crônica, a sua essência, continua, mais viva do que nunca, observando Bagé, Taubaté, o gaúcho, o brasileiro, o mundo inteiro, de preferência, sorrindo.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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