José Nunes
Trago muitas lembranças do lugar onde nasci, algumas boas e outras nem tanto. Se a terra dava comida e agasalho, a cultura esbarrava na dificuldade do acesso ao livro.
As primeiras letras aprendemos em puxadinho parede-meia à casa de nossa avó, com bancos da tábua rústica ao redor da grande mesa. A Cartilha do ABC era o barco para aprendermos a navegar.
O livro como produto do saber chegou mais tarde, no Grupo Escolar, em Serraria. Dessa época lembro do texto de Câmara Cascudo sobre o mito clássico grego, “O Tonel das Danaides”. A leitura de ouvido, aprendendo com a musicalidade dos cordéis. Relíquias guardadas na memória, reencontradas nos contornos da vida.
Tarde tomei gosto pela leitura. Adolescente, o livro passou a ser alimento para minhas divagações e repouso do espírito.
Ganhei gosto pelo livro depois de chegar ao terraço de Nathanael Alves e ocupar as redações dos jornais, já beirando os vinte anos. Um atraso involuntário porque tudo era dificultoso. Mas eu era esperançoso.
Entro na livraria, manuseio e apalpo obras literárias, cheiro as páginas e não contenho o ímpeto de abraçar os livros como se fossem meus filhos ou netos.
Quase sempre, sobretudo nas livrarias dos shoppings, crianças e jovens se divertem folheando romances, revistas de mangar. Em conversas intermináveis, passeando por entre as mesas e prateleiras cobertas de livros, mantém intermináveis conversas.
Abro os ouvidos para escutar o que comentam. Falam das leituras e dos livros que inspiraram seriados na televisão e filmes. As vezes sinto certa disputar entre eles para saber quem assistiu ao melhor filme, ao seriado, ou leu um livro.
Discordo quando dizem que os jovens se afastaram da leitura, leem o que os colégios exigem. Até certo ponto. Mas não é bem assim. Visitem as livrarias e verão esse público circulando. Bulindo ou manuseando os livros, para mim, é um bom começo. Esse contato com a livraria é um passo importante para chegar à leitura. O gosto pela leitura vem com o estímulo dos pais e dos professores.
O incentivo à leitura é das escolas, não tenhamos dúvida. Maior responsabilidade continua sendo dos pais. E dos avôs. Esses sim, em casa, devem colocar o livro ou a revista nas mãos de filhos e netos.
Para recuperar o tempo de minha infância ausente dos livros, presenteava meus filhos com obras de autores com linguagem ideal para a idade. Trazia eles para junto da pequena biblioteca de casa, num cantinho da sala.
Décadas depois aflorou o mesmo prazer vendo os netos entre os livros, não mais na biblioteca mixuruca, mas no meio de um monte obras que abrem um leque para maior conhecimento. Se tornando alimento para a alma.
Minha filha Angélica cedo se tornou leitora porque estava perto dos livros. Eu pedia que, após a leitura do romance, por exemplo, resumisse para mim a história e apontasse o que mais a tocou. Ainda hoje vejo frases sublinhadas e anotações a letra miúda nos livros da Coleção Imortais da Literatura Universal, feitas por ela.
Semelhante tática utilizo com relação aos netos. Se vão se tornar jornalista ou escritor, como minha filha, somente o futuro dirá. Pelo menos estou tentando criar leitores.
Sempre quando posso, acompanho meus netos às livrarias. A neta Luana desejou conhecer um sebo cultural. Quando fomos. Foi enorme o deslumbramento dela passeando por entre pilhas de livros.
Ouvindo-a na Igreja fazendo a leitura da Palavra no ambão, me encho de emoção.
No momento portuno quero ensinar para Luana, Bernardo, Arthur e Pérola o sentido da Poesia e da Filosofia, porque revelam os caminhos da vida, um acesso ao interior da realidade do mundo.
Os gestos e os afetos dos filhos e netos para com os livros reconstruíram em mim, em épocas diferentes, uma visão diferente da vida.
Para eles, nos limites dos meus conhecimentos, tenho ofertado a orientação para a leitura.
Desejo mostrar que o livro não é um tonel semelhante ao mito das Danaides, da Mitologia grega. Cada livro tem uma lição. Cada poema nos transforma. Aconselharei a se renovarem por meio das artes, da literatura e da poesia porque trazem alimento para a alma.
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