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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: [email protected]

Eu vi uma rosa

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publicado em 03/05/2026 ás 07h00
atualizado em 02/05/2026 ás 21h01
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O certo é que já ninguém acredita em mais nada. No entanto, existimos. Numa cena plácida, muita gente não gosta de poesia; outros, têm esse hábito de acordar e declamar um poema de Drummond nesse universo tão precioso da literatura. Conheço quem sabe de cor os sonetos de Camões, os poemas do Bandeira, Cecília Meireles. Em 1982, em ´Cores e Nomes´ Caetano Veloso mandou dizer que a critica não tocasse na poesia.

Não adianta pensar na poesia como realidade social, capaz de incidir no gosto e no modo de ver e pensar coletivo. Claro que não, a poesia não mora nesse espaço vago da promessa, dos gestores, políticos e mentirosos da realidade brasileira.

Comprei na Livraria da Travessa (Rio) a ´Antologia Poética de Manuel Bandeira´ e tenho feito descobertas de belos poemas nesta constatação de perceber que não se trata de um sonhar momentâneo. Não, a poesia não é coisa de críticos oficiosos, que sempre apontam ao pragmatismo e a subserviência –  nem sei por que estou dizendo isso.

Em “Belo, Belo”, Bandeira diz: “A aurora apaga-se, e eu guardo as mais puras lágrimas da aurora, o dia vem, e dia a dentro continuo a possuir o segredo grande da noite” 

Essa aurora é do poeta  e é nossa – nesse ritmo acompanhado, que começa por pôr em evidência algo de muito, no viver em comum: é que não sendo esta indicação a partilha de algo mais comum ainda, que o Bandeira guarda suas lágrimas e o segredo da noite passada.

Como se da poesia vivêssemos longe dessa ressalga de um coletivo e se tratasse assim, e não outra condição da existência, que só assenta na separação das horas. Nada disso, a poesia tem vida própria, namora com a prosa e é lá nos versos se encontram os personagens, por isso não é fácil ser poeta. Não é mesmo.

São quase 400 páginas, passando pela ´Aranha´, (que ele fez para Graça Aranha) a sanha, no corredor da cinza das horas, a dona branca que eu encontrei e no mundo perdi (o poeta, não) até a Libertinagem, a Lira dos Cinquent´anos Anos, o Itinerário de Pasárgada, e as estrelas da Tarde e da Manhã.

Não há solidão nos poemas do Bandeira, talvez eu descobriria mais tarde, pela qual cada verso insubstituível do poema. “Eu vi uma rosa – uma rosa branca, sozinha no galho. No galho? Sozinha. No jardim, na rua. Sozinha no mundo” 

Quem não gosta de poesia certamente são os falsos poetas, que não preciso enumerar. E não se pense que os que não gostam de poesias se sustentam nas funções de representação de alguma coisa, talvez gozando com o p do outro.

 O  poeta se veste da sensibilidade, ao marcar sua poesia, seu espaço leitor do outro, mas isso eu não sei se vem a calhar no meu texto.  Sim, tem um pouco de poesia na minha prosa, mas eu não sou poeta, sou leitor do Bandeira.

 Em “Cânticos de cânticos”, Bandeira não da bandeira  no poema lírico-erótico que aborda o outro,  dialoga com a intensidade do amor físico e a entrega amorosa. E não tem coisa mais bonita do que a entrega.

 A vida não imita a poesia, a vida das porradas, a vida severina, a vida como ela é, ao nos retratar o que quiser, utilizando um tom de celebração ou nada,  mas a vida nunca foi um mar de rosas.

Kapetadas

1 – Bem-vindo ao Clube dos Sabidos – qual é o seu poder? – Querer – desculpe mas querer não é poder.

2 – Previsão do tempo: não vai dar tempo.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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