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Jornalista paraibano, sertanejo que migrou para a capital em 1975. Começou a carreira  no final da década de 70 escrevendo no Jornal O Norte, depois O Momento e Correio da Paraíba. Trabalha da redação de comunicação do TJPB e mantém uma coluna aos domingos no jornal A União. Vive cercado de livros, filmes e discos. É casado com a chef Francis Córdula e pai de Vítor. E-mail: [email protected]

Carona com Miller

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publicado em 29/03/2026 ás 07h00
atualizado em 28/03/2026 ás 19h31

Botei meus olhos, acho que pela última vez, no ´Trópico de Câncer´ de Henry Miller, quem  sabe eu encontre no Centro Histórico  de João Pessoa, o cenário do romance de 1934 em Paris, considerado fundamental da literatura moderna, algo verborrágico e lascivo. Como ele mesmo disse: “Isto não é um livro. É libelo, é calúnia, difamação…”

Vamos imaginar a tropa cá dos trópicos de Tambaú,  nos espinhaços entre os obcecados por liberdade sexual, viagens e boemia, o que não difere dos tempos de hoje, embora de forma autobiográfica, as histórias de Miller não devem ser levadas ao pé da letra. São uma mistura de ficção e realidade – um tipo de Bukowski mais elaborado, filosófico e surrealista. O Henry Miller deu esse ponta pé.

Delírios românticos dos escombros e subúrbios dos cabarés da Paris dos anos 30, a guerra era outra, quase uma sombra a rondar incessantemente a cabeça dos intelectuais, artistas, pintores, e todos que se reuniam para beber, transar e discutir. Discutir o quê? Ora, discutir as coisas consumidas com outros até se empanturrarem de sensibilidades imaginárias.

Henry está por aí, nada no bolso e nas mãos, e vivia de bicos (na prisão dos escritores: o jornalismo) o que parece bem mais atual, mas poucos jornalistas ganham bem ou conseguem pagar as contas, sem esquecer que hoje todo mundo é jornalista, com suas páginas e asneiras nas redes sociais. Em priscas épocas, o absurdo não só acontece, ele toma posse.

Conhecido como anti-herói Henry Miller se afirmava com um artista assalariado, obrigado a interpretar uma farsa intelectual sobre seus estúpidos desejos. Delírio, muito delírio. E o mundo dando  voltas.

Os capítulos de Trópico de Câncer vão se revezando um após o outro sem nenhuma ordem cronológica, o que não difere do que estamos vivendo, nós carregados de fluxo de inconsciência com reflexões fantasiosas nos relatos crus do cotidiano do toma lá dá cá.

Sexo é o clima, mas sexo é apenas uma brincadeira de adultos. Quem viu o filme “Henry & June” de Philip Kaufman (diretor de “Contos Secretos do Marquês de Sade” ), focado no triângulo amoroso entre Henry, sua esposa June e a escritora Anais Nïn, não vai tentar entender o que hoje se diz ´trisal´. Outro dia vi no Instagram uma mulher casada com 4 homens – não sei como eles aguentam, ou se estão todos mesmo  coito.

A busca por grana e sexo, muita grana, e sexo é bom demais, até não representar mais nada, grana e sexo como formas de sobrevivência, sobrevivência uma ova, como única alternativa da vida. É pra lascar, viu?

Nas redes sociais o sexo não tem segredo, nem é surrealismo, nunca foi, sexo tem e recebe influências da arte, mas não creio ou creio, estar confundido a coisa toda.

Hoje ´Trópico de Câncer´,  ainda  assombra, claro, é um clássico, mas há algo a mais ali. Não é um livro pornográfico, já que sexo não tem a ver com pornografia. Os censores da época acusaram o livro de imoral e conseguiram manter a obra inédita por 30 anos nos países de língua inglesa. Quanta bobagem

Até que um dia Oswald de Andrade disparou que Miller clamava para que se incendiassem as bibliotecas, museus e biografias. E que os mortos devorem os mortos e os vivos dancem na chuva.

Não sei se é bom, mas não deixa de ser.

Kapetadas

1 – Não subestime um idiota. Ele pode ter seguidores. E muitos.

2 –  O homem é um animal político. O político, às vezes, nem animal é.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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