João Pessoa, 18 de novembro de 2025 | --ºC / --ºC
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Meu caro Fred, estou escrevendo essa carta, para dizer que não consigo enxugar suas lágrimas, mas posso chorar junto. Imagino sua dor, mas ninguém sente igual.
Não deve ser fácil perder o amor da vida, meu caro amigo, as intimidades desse amor, e para isso é que servem vidas juntas, únicas, com pessoas que nos são sagradas, que é demarcado um tempo e um lugar para viver conosco, sem as quais não cresceríamos sozinhos.
Por nós mesmo, vivemos essa adoração dos amores. Por mais dados, mãos dadas, por muito que desafiem a narrativa da despedida, ainda não inventaram um jeito para nos acostumarmos com as perdas. Uns dizem que o tempo resolve, mas o tempo não espera por nós. Como disse Rachel de Queiroz, o tempo não apaga tudo, apenas adormece.
Se estamos condenados a esse novelo, que nos empurra para a frente sem descanso e sejamos fortes e você é um deles, um homem duplicado.
A sua mulher Fernanda parecia uma menina, tamanho o cuidado de ambos, um com o outro. Quando nos encontrávamos em lugares públicos, ela transparecia uma suavidade, longe dos rigores formais, mas quanto à vigilância de si mesma. Agarrada ao ímpeto, Fernanda era à urgência desse amor, que bateu forte em seu coração.
Não sei quem fazia o café, quem acordava primeiro, mas tudo será falta. A hora do almoço, o pintor no ateliê e a alegria de dividir com a mulher todo amor dessa vida.
A vida nos leva pra cá e pra lá, meu caro Fred, como se estivéssemos entre personagens de suas telas, arte avançada no tempo, mas o tempo não está nas paredes, nem temos a certeza de que envelheceremos juntos, de quem amamos. Acontece.
Seja o milagreiro da canção de Djavan e traga girassóis para suas telas: “tudo irá se expandir, crescer com as águas, quiçá, amores nos corações”
Traga os girassóis para dentro da sua vida, dê as roupas dela a quem mais precisa, faça de uma prece, uma graça alcançada e a saudade a gente vai aliviando, sonhando…
O cheiro dela ainda estará pela casa, pegadas ainda vivas, o perfume, o detalhe da mesa posta, as xícaras, o lavatório das mãos, esses hábitos a quem nos agarramos e nem notamos
Meu caro Fred estou escrevendo essa carta, no domingo à tarde sobre os reflexo de suas lágrimas, mas ainda temos o sol, que se mete em tudo, seca-nos o rosto tão cedo e outros rios virão ao atravessarmos nossas tragédias.
Flores na cabeça e fé no que virá
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Hoje nao tem Kapetadas
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BOLETIM DA REDAÇÃO - 15/01/2026