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Hildeberto Barbosa Filho
Leio e sublinho alguns versos de Rogério Newton, no livro Bem-aventurâncias (Cotia: Uratau) e de José Elielton de Souza, em Malinação (São Paulo: primata), os dois, de 2025. Ambas as coletâneas foram lançadas recentemente na Livraria A união. Ambos os autores são do Piauí, terra de poetas de fina estirpe, a exemplo de H. Dobal, Félix Pacheco, Mario Faustino, Paulo Machado, Torquato Neto e tantos outros.
Rogério Newton tem mais estrada e conta, no seu currículo literário, com alguns títulos no campo da poesia, da crônica e do ensaio, num total de 11 livros publicados. José Elielton de Souza, por sua vez, bem mais jovem, faz a sua estreia em livro, embora já tenha participado de algumas antologias e escrito um volume de ensaios, Do centro da margem: invenções contemporâneas deste lado de cá do mundo, de 2024.
Rogério Newton divide seus poemas em três seções (“Bem”, “Aventura” e “Ânsias”), numa edição que define bem o núcleo temático de sua dicção poética. Diria que sua versificação prima, a princípio, pelo cuidado e pelo lavor diante do corpo da palavra. Ao bem, ou bens, juntam-se a aventura e as ânsias, estabelecendo a substância motivadora do lirismo, em tudo preciso, medido, contido, acabado. Ao ingrediente objetivo de certas imagens que recorrem nos textos, associam-se os fatores subjetivos da fala, por meio dos quais pode-se tocar a sutileza da sensibilidade poética na apreensão das coisas e dos sentimentos do mundo.
A escrita privilegia o silêncio, evoca a infância, repassa leituras, pensa o poético, testemunha o espanto e a dor existenciais. O tempo e a morte se fazem presentes enquanto instâncias decisivas do processo criativo e insumos inadiáveis de certa visão de mundo. A natureza também se insinua em passagens quase eufóricas, não fora o sentido de controle emotivo que parece presidir o ato de criação. “o silêncio dentro e acima das formas ∕ faz até os pássaros emudecerem ∕∕ a madrugada chegou ∕ estou desperto e não sonho”.
Na metaposia, o poeta se esmera à maneira de um ourives atento à delicadeza dos matérias utilizados, para fazer as peças brilharem com um ouro especial. Lendo o poema da página 31, confirmo o privilégio dessa sensação, senão vejamos:
no momento em que escrevo
o bico da caneta aponta o papel
e quatro dedos para mim
no momento em que escrevo
penso horrores no jardim
que não é mais do éden
no momento em que escrevo
palavras saem da caneta e cai
pó das estrelas sobre mim
Eis a marca essencial do registro em sua voz. A poesia como captação do imperceptível e como lição de coisas, atos, fenômenos, num permanente exercício de luz e sombra que move a vida.
Em Malinação, José Elielton de Souza como que se dispõe, em lúdicas travessuras vocabulares, a inscrever a natureza, a fauna e a flora dos longes rurais na pauta mágica da dimensão poética. Aprecio, em seu ofício face aos sortilégios da palavra, sobretudo, os poemas curtos, embora muito me agrade o élan politemático de “profecias”, texto que fecha o livro.
“Ofícios”, poema que abre a coletânea, assume a posição de profissão de fé e esclarece, de saída, certo tom e certa perspectiva que vão gerenciar a maneira de compor desse jovem poeta. Vejam-se os versos: “teimar com a beleza ∕ à beira do abismo ∕ eis o (meu) ofício”. Nesta mesma linhagem do mínimo, em que o autor se realiza melhor, valem alguns poemas pelo sentido de economia verbal e pelo viés estético que ostentam na sua sutileza e densidade. Eis alguns deles: “genealogia”, “eclipse”, “demiurgias”, “a ordem das formigas”, “maçã”, “as luzes” e “produto interno bruto”.
Dois poetas, duas gerações, num encontro que renova a tradição poética do Piauí, revelando, também, as vastas latitudes da poesia brasileira contemporânea.
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