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Poeta, escritor e professor da UFPB. Membro da Academia Paraibana de Letras. E-mail: [email protected]

Sérgio Botelho numa viagem sentimental

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publicado em 04/03/2026 ás 07h00
atualizado em 03/03/2026 ás 19h13

 

Hildeberto Barbosa Filho

Mulheres, todas. Cidade, só uma: Recife, dizia o poeta alagoano, Lêdo Ivo, numa de suas boutades literárias. As cidades são como as mulheres, nas suas paisagens, nas suas histórias, na sua beleza. As cidades são criaturas vivas, possuem memória e precisam ser amadas.

Com certeza é o impulso amoroso que guia o olhar de Sérgio Botelho nestes passeios mundanos que faz pela geografia e pela história da cidade de João Pessoa, nesta memorável viagem sentimental.

Seus apetrechos residem nas experiências da infância, da adolescência e da maturidade, incorporadas ao baú de guardados e das lembranças de certos lugares e de certos acontecimentos que formam a tessitura espiritual de uma cidade. A tais apetrechos se associam os passos pacientes da pesquisa nos acervos públicos, principalmente, nas velhas coleções do jornal A União.

Unindo, no mesmo corpo da palavra, o sabor e o saber, a memória e a imaginação, o afeto e o dado preciso, Sérgio Botelho, a cada crônica esboçada, vai descortinando o cenário de uma mágica topografia que nos dá, a nós, leitores, uma imagem viva e vívida das coisas que passaram. Com seu glamour, sua textura própria, sua intangível beleza cristalizada nos espelhos do tempo.

Uma das tópicas essenciais é a vida boêmia da cidade. Seu latejar em compassos, que vão além das convenções sociais, inscreve-se como termômetro eloquente de sua identidade coletiva. Uma cidade também se desvela pelo calor erótico de sua intimidade. Uma cidade também é os seus bares, os seus restaurantes, os seus cabarés, as suas noites, as suas madrugadas, as suas mulheres, os seus amores, os seus sons, os seus encontros e desencontros furtivos à meia-luz, na instantaneidade eterna dos desejos humanos. Na sua intrínseca precariedade e no seu misterioso esplendor.

Sem se deixar cercear por estereótipos ou preconceitos, o autor descreve e narra esta atmosfera de boemia como um dos núcleos semânticos centrais de sua configuração discursiva. Abre, portanto, um viés curioso e atrativo, para adentrarmos o espaço histórico da cidade, suas ruas, artérias, praças, becos e vielas, assessorados por um precioso toque de nostalgia e poeticidade.

As festas tradicionais, como a secular Festa de Nossa Senhora das Neves, a padroeira da cidade, no cotejo salutar entre o sagrado e o profano, também integram a plataforma desta escrita que oscila, em sua naturalidade, entre a crônica, o artigo, a memória, a história e a poesia. Os clubes sociais, os carnavais, o ingrediente alegre e festivo adensam, por outro lado, a componente lúdica dos dias idos e vividos que selam o inestimável valor da memória coletiva da cidade.

Sérgio Botelho, com este novo livro, amplia o olhar que se estratifica no seu volume de estreia, Memórias da cidade de João Pessoa (2024), ao mesmo tempo em que convida o leitor para se fazer seu cúmplice nesta viagem sentimental.

Muitos dos ambientes de que fala o escritor e jornalista já não existem mais, a não ser por meio do registro verbal de seus textos que os presentificam na tela acesa da memória, tornando-os ainda palpáveis no coração dos que os conheceram e os frequentaram. E para as novas gerações, que não tiveram a oportunidade de saborear o clima poético desses lugares ou desses acontecimentos, fica a expressão da palavra, o documento vital que representa aspectos inesquecíveis de uma época.

Desde que voltou de Brasília, onde passou alguns anos por ingerências profissionais, Sérgio Botelho, menino nascido aqui na cidade de João Pessoa, realiza um reencontro encantado e encantatório com o seu velho e amado burgo. Parece até que o tempo vivido lá fora lhe deu uma luz diferente, abriu-lhe um ângulo novo de visão, permitindo-lhe, pela alquimia da recordação, fazer essa viagem de volta. Uma viagem generosa, afetiva, sentimental.

Por isto mesmo, Sérgio Botelho vem se associar a uma fina e saborosa tradição literária que bota a cidade de João Pessoa dentro do círculo visceral do coração. Penso, aqui, nos escritos de um Walfredo Rodrigues, um José Américo de Almeida, um Wills Leal, um Severino Ramos, um Paulo Soares, e nos versos de Eulajoje Dias de Araújo, Jomar Morais Souto e Políbio Alves.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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