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José Nunes da Costa nasceu em 17 de março de 1954, em Serraria-PB, filho de José Pedro da Costa e Angélica Nunes da Costa. Diácono, jornalista, cronista, poeta e romancista, integra a Academia Paraibana de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, a União Brasileira de Escritores-Paraíba e a Associação Paraibana de Imprensa. Tem vários livros publicados. Escreveu biografias de personalidades políticas, culturais e religiosas da Paraíba.

Fogo Morto e as Ligas    

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publicado em 21/04/2026 ás 16h25
 
José Nunes
         Entre o período Natalino e os dias anteriores a Festa de Reis, voltei às paisagens de José Américo de Almeida e José Lins do Rego para amenizar a saudade das regiões descritas pelos dois conterrâneos, a mim familiares. As várzeas do Rio Paraíba e os grotões do Brejo da Paraíba estão perenizadas nas páginas antológicas produzidas por ambos, as quais carrego como suaves lembranças.
         Entre todas as artes, vozes humanas encontram perenidade na literatura, com panoramas que carregam alertada força que brota da terra e dos anseios do povo. Principalmente, do povo sofredor.
         Estes dois autores conterrâneos trouxeram às páginas da literatura universal dramas profundamente humanos, que se repetem em diferentes tempos e lugares, semelhantes na mesma dor.
         Os romances: A Bagaceira e Fogo Morto, objetos de minhas leituras no período ao qual me referi, são compêndios das situações humanas reveladas com o poder da arte de escrever. Dramas intensamente atuais, que se repetem silenciosamente, que a arte perenizar para ser recordados.
         Se no romance de José Américo temos o drama da seca e os ingredientes das paixões amorosas, em José Lins do Rego são as práticas opressoras que se repetem secularmente em nosso País, notadamente no Nordeste e, especificamente, na Paraíba. O poder do trabuco econômico sobrepondo aos poderes divinos e constitucionais, sufocando o grito da periferia, fazendo todos camumbembes.
         O livro Fogo Morto nos permite reflexões acerca de temas que há séculos se repetem. A justiça social, a luta por um punhado de terra, a opressão do Estado, a ganância e a prepotência dos poderosos são abordados como pontos centrais do drama humano que milenarmente se repetem.
         Durante o curto espaço entre a leitura dos dois livros, deparo-me com uma entrevista do homem que suscitou as Ligas Camponesas no Nordeste e, de modo particular, com repercussão na Paraíba. A Revista Manchete, de 29 de julho de 1961, traz matéria com o respeitado articular dos movimentos camponeses Francisco Julião. Suas palavras me fizeram lembrar dos retirantes descritos em A Bagaceira e da luta do mestre José Amaro para permanecer nas terras do engenho onde sempre trabalhou. Lembrei dos episódios do Café do Vento, tão vivos na memória, quando usineiros – políticos – foram acusados de assassinar o camponês João Pedro Teixeira.
         Os camponeses João Pedro, Nego Fuba e outros, seguindo os conselhos de Julião, fizeram tremar a terra na Paraíba, notadamente na região dos canaviais da Várzea do Paraíba e Brejo, onde a chibata e o grito eram os sinais visíveis do poder das oligarquias rurais, há décadas eram sólidas em suas práticas.
         Instigado a comentar sobre suas ideias, Julião falou para a Revista que se considerava “um agitador social, como foram Cristo, Spartacus, Lincoln”. Foi contundente ao justificar suas posições: “Sou socialista com a pretensão de ser autêntico. O único comunista que conheço, comunista no real sentido da palavra, foi Cristo”. Lembrava que na Bíblia se fala da igualdade para todos. Realmente, isso é bem claro no livro Sagrado. Deus criou a terra para todos, mas uns sabidos tomaram conta dela. O Sol, a Lua, o ar, a água e a brisa são para todos, menos a terra. Importante é fazer com que a terra volte a ser de quem mais precisa para dela retirar seu sustento.
         Quem nunca cavou a terra, nunca plantou sementes de esperanças, nunca saberá quanto é duro não ter onde repousar a cabeça. Mestre José Amaro passou por isso, assim como João Pedro Teixeira e Margarida Maria Alves, que são símbolos da resistência contra a opressão.
         As massas angustiadas descritas pelos dois autores paraibanos e as famílias, ainda hoje, continuam a clamar por justiça. Uma justiça que Jesus Cristo proclamou há mais de dois mil anos, sendo na ocasião ouvido pelos oprimidos, mas foi massacrado pelos poderosos que continuam a se perpetuar no poder, a explorar e enganar o pobre.
         Se as Ligas Camponesas tinham como princípio “lutar pelo acesso à terra, liberdade para cultivar e justiça social”, estava repetindo as ideias de líderes religiosos e políticos que carregam o sentimento mais profundo do relacionamento humano.
 

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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