João Pessoa, 23 de fevereiro de 2026 | --ºC / --ºC
Dólar - Euro


Estevam Dedalus
Uma amiga me perguntou qual seria a diferença entre o ritual funerário dos indígenas Wari – em que os parentes comem o corpo do morto para que ele “encontre o seu destino” – e a Eucaristia católica, isto é, o ato litúrgico de comer “o corpo de cristo” para garantir a remissão dos pecados e a vida eterna.
Essa não é uma pergunta simples de responder. Há quem veja – como a minha amiga – um paralelismo entre o rito funerário Wari e as práticas de sacrifício animal e humano – que serviam como oferenda para apaziguar a ira divina e garantir bons auspícios. Algo que pode ser visto em várias religiões. A Bíblia mostra como era comum a prática da imolação do cordeiro. A tradição cristã passou a interpretar a morte de Cristo como o cumprimento e a radicalização desse simbolismo sacrificial.
Os ritos cristão e Wari guardam enormes diferenças. A ucaristia é uma dramatização ritual da morte e da salvação, o que podemos chamar de uma forma de “internalização da alteridade divina”. Como todo rito dessa natureza, estamos falando de um instrumento social usado para transformar o mito em ação. Isso porque o sacramento presentifica o sacrifício de Cristo, o que de um ponto de vista sociológico implica a criação de subjetividades e o estreitamento dos laços da comunidade religiosa, ao mesmo tempo em que reforça a sua autoridade.
É curioso que o sacrifício de animais vá desaparecer com o desenvolvimento dessa religião. Para a teologia cristã, o sacrifício animal cumpria o papel de produzir a expiação dos nossos pecados. O seu objetivo era o de introduzir a restauração da ordem e da justiça divina rompida com a queda do homem no paraíso. A morte de Jesus, o sacrifício do Deus que virou Homem, substitui qualquer prática de imolação animal.
Entre os Wari o problema é de outra natureza. Não existe pecado, nem se busca aplacar a ira dos deuses. A questão fundamental é o luto e a transformação do morto, com implicações sobre os conflitos sociais.
Autores como Eduardo Viveiro de Castro e Roberto da Matta nos ensinaram que o problema da pessoa é o tema central da etnologia brasileira. A pessoa não é um dado natural, mas algo construído socialmente. No caso dos povos indígenas brasileiros, o corpo é o lugar de fabricação da pessoa. Trata-se de uma categoria relacional. Tal ideia se distancia da perspectiva ocidental moderna, na qual o indivíduo é um ser universal, autônomo e autocentrado. A condição de pessoa é ainda uma pré-condição para a criação da dignidade e obrigação moral.
A pessoa não existe, portanto, de forma isolada. No caso dos indígenas, ela está inserida em redes de parentesco e depende de ritos de passagem e dos ciclos de vida. Vejam que o funeral Wari define obrigações específicas para os indivíduos com base em seu grau de parentesco com o morto. Os parentes mais próximos, consubstanciais, não consomem o corpo. Eles choram e organizam o funeral. Já os parentes distantes são os responsáveis por comer o defunto. O que se segue é um processo de reconhecimento da pessoa, a incorporação do indivíduo numa totalidade maior, isto é, na comunidade, por meio da eficácia simbólica da antropofagia. Isso é reforçado por meio de práticas rituais como a destruição da casa e de todos os pertences do defunto e a transferência de seu nome para alguém da aldeia. Acontece assim a despersonificação do morto, ou, numa linguagem filosófica, podemos dizer que ele foi subsumido pela comunidade.
Ao contrário do cristianismo, esse ritual não é um sacrifício expiatório, mas um processo de reorganização ontológica da pessoa. Observem que o morto entre os Wari é despersonalizado e, em seguida, dissolvido na comunidade, enquanto na Eucaristia Cristo não é despersonalizado. Na verdade, é ele quem assimila o fiel. Percebam que existe uma diferença ontológica entre os dois ritos. Entre os Wari, o ritual opera na lógica da transformação da pessoa dentro da comunidade. Na Eucaristia, porém, o rito funciona na lógica da comunhão com uma pessoa transcendente que permanece ontologicamente distinta.
Para os católicos, a Eucaristia não é um ato meramente simbólico ou metafórico. A ideia, a grosso modo, é que na liturgia vivenciamos a presença real de Cristo. Ao comer o pão e o vinho, o cristão está se alimentando do próprio Cristo, que estaria presente em todo o pão consagrado e em cada gota de vinho. A doutrina tem inspiração aristotélica e se funda na distinção entre substância e acidente. Dito de outra maneira: acredita-se que a substância (o seu ser próprio) do pão e do vinho deixa de existir, mantendo-se apenas seus acidentes, ou seja, seu gosto, cheiro e forma.
É por isso que durante o império romano os cristãos foram acusados de canibalismo, o que é uma acusação sem sentido. A própria Igreja distingue a Eucaristia da antropofagia. O corpo de Cristo não é consumido de modo biológico, mas sacramental. Ao contrário do rito funerário dos Wari, no qual existe o consumo material de um corpo, ainda que inserido em uma ordem simbólica, na Eucaristia não há absorção de um cadáver, mas comunhão com o Vivente.
* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB
RETA FINAL DO CAMPEONATO; CONTRATAÇÕES E QUEM É O CRAQUE DA COMPETIÇÃO? - 20/02/2026