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Hildeberto Barbosa Filho
Há muitas maneiras de lidar com as palavras. Na sua natural flexibilidade semântica, as palavras podem se prestar à composição das ideias e dos conceitos, das emoções, dos apelos, serviços, referências e outras instâncias que constituem o mundo das representações e dos significados.
Alguns as tomam, as palavras, como protagonistas da arquitetura verbal, querendo chamar a atenção do ouvinte ou do leitor para a luz que ilumina sua matéria sensível, seu corpo melódico ou imagético, fazendo-os mergulhar nas águas prazerosas da chamada, segundo Roman Jakobson, função poética da linguagem. Aqui, mais que a mensagem em si, contam, sobretudo, os efeitos lúdicos e artísticos que as palavras podem desencadear com a sua arrumação especial em torno dos critérios da literariedade.
Outros as usam como meios e não como fins, procurando canalizar, através dos procedimentos do eixo da contiguidade, isto é, da lógica discursiva e da organização sintática, os diversos conteúdos que podem exprimir, seja na formulação linear da prosa, seja no movimento cadenciado do verso. É o dizer, e não o fazer; o quê, e não o como, que importa na consecução final do texto.
Mirtzi Lima Ribeiro, que já nos deu Pensamentos noturnos (2023) e Pausa para poetizar (2024), retoma, agora, com este O campo lírico do sentir (João Pessoa: Ideia, 2025), o veio de sua expressão em verso. Por um lado, uma expressão fortemente confessional, e, por outro, uma expressão categoricamente didascálica.
O título me assegura acerca de seus interesses tópicos, de sua paisagem temática, de suas circunstâncias emocionais, estratificados numa multiplicidade de motivos que compõem a geografia de seus poemas. Em textura, ritmo, ideia e imagem.
Os sentimentos, o corpo, as memórias, as cores, a mulher, as flores, os amores, os ideais, os caminhos, as possibilidades, as noites, a vida, o imaginário, enfim, assuntos, temas e subtemas são explorados num tom subjetivo, especialmente moldado pelo crivo sentimental, e numa perspectiva eufórica diante das vivências, fenômenos e coisas do mundo.
O confessional talvez se projete com mais ênfase neste conjunto de textos e pode ser exemplificado com inúmeros poemas. Com a maior parte dos poemas, não importa a inclinação lírica e motivadora que possa ostentar. Leiam-se, entre outros, “Um devaneio”, “Um jardim secreto”, “O Oásis dentro de nós”, “Se eu soubesse” e “Nas chuvas que eu vi”.
O dicascálico, por sua vez, afinado ao viés conceitual, decerto melhor aproveitado no modelo da prosa, como o fez a autora com o já referido Pensamentos noturnos, aparece, aqui e ali, descortinando a sua cosmovisão, não raro crítica face à volatilidade e liquidez da sociedade contemporânea. Observem-se, em particular, os poemas “Tempos líquidos”, “Pretensões”, “Mundo de aparências”, “Consumo inconsciente” e “E agora?”, como provas incontestáveis do vocativo didático e referencial da linguagem de Mirtzi Lima Ribeiro.
Em síntese, vejo, neste Campo lírico do sentir, a convergência essencial das funções afetiva, conativa e referencial da linguagem se predispondo ao diálogo com o leitor, na medida em que a noção de literatura, em sua larga e variada abrangência, pode comportar.
Se a palavra não pesa por si mesma, materializada em sua natureza acústica, morfológica, sintática e imagética, abre, no entanto, seus canais de comunicação para refletir a realidade em suas contradições e em suas mudanças. O eu poético, que faz ecoar diretamente a voz da autora, socorre-se do verso, não pelo canto e sua redondeza significante, porém, para dizer e pensar…
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