No final do mês de março foi lançado livro Paraíba – Muito Além do Sol e do Mar -, sem dúvida uma obra preparada com esmero para exaltação da cultura, das paisagens naturais e históricas da nossa terra. Livro com destacável apresentação e impecável acabamento gráfico. Entretanto, seu conteúdo tem deslizes evitáveis com apurada revisão de subsídios históricos. O texto contém dados incorretos. Me atenho a narrativa sobre o lugar onde nasci, Serraria.
Quem escreveu sobre Serraria escorregou nos dados históricos, econômicos e geográficos. A cidade não fica em área de transição entre Brejo e Agreste. No Brejo estão embutidos Serraria, Areia, Pilões e Borborema, sobretudo estas cidades, o núcleo central da Região. Ainda pega uma beirada de terra de Solânea, Alagoa Grande, Bananeiras e Alagoa Nova.
Também se enganou ao afirmar existir em Serraria casas construídas na época do Brasil Colônia. Mesmo com características coloniais, sobrados e casas rurais achatadas, telhados de telhas de barro vermelho cozido e fachadas simétricas, o conjunto arquitetônico do lugar é do período do Império e começo do século XX Por volta de 1850, quando existiam pequenos engenhos no entorno do lugar onde está localizada a cidade, o Brasil não era Colônia de Portugal, mas já segundo Reinado, com Dom Pedro II.
No Império floresceram os primeiros engenhos na região de Serraria, atraídos pela bonança do barro vermelho da região de serras, climas aprazíveis e água abundante.
Escorregadela também foi a identificação do engenho Baixa Verde como sendo de Bananeiras, quando na realidade fica localizado nos arredores da cidade de Serraria, a menos de dois quilômetros da sede do município, construído no entardecer do Século passado. Neste engenho nasceu o pintor e poeta Hermano José, que se destacou nas artes plásticas da Paraíba e também como professor e defensor do meio-ambiente. Não cita o nome do engenho, cuja arquitetura canavieira é uma das mais belas do Nordeste. Igualmente, deixou de legendar o engenho Martiniano, também majestoso, apenas indicando como localizado em Serraria.
Acrescentaria, também que desconheço o termo “Capital dos Engenhos” que cunharam para Serraria. Um título que envaideceria seus habitantes, mas ainda não descobri a fonte onde está esse registro. Lei municipal reconhece a cidade como sendo a Princesa do Brejo, a terra das palmeiras, cantada também em prosa e versos.
Quanto aos engenhos, no passado, o município era povoado de pequenas indústrias, quase artesanais destinadas à produção de rapadura, açúcar mascavo e, alguns, cachaça de excelente qualidade.
Mas nunca ouvi referência acerca da chancela de “capital dos engenhos”. Gosto mais de Princesa do Brejo, dá mais pompa e grandeza poética. Sem renegar o título de capital dos engenhos, mas terra das palmeiras e princesa do brejo são por demais românticos. Remetem à poesia da região, que aflora por todos os recantos.
Poético é chamar de “Terras das Palmeiras”, como tem sido cantado em prosa e verso durante décadas. Em poemas antológicos, Nathanael Alves e Eudésia Vieira, a professora e o poeta que engrandeceram a paisagem cultural de Serraria com poesias e crônicas exaltando a sua paisagem. Ressaltaram, sobretudo, as palmeiras no alto das serras que acenam para quem chega e dá adeus aos que partem. Deslumbrados com o que observavam em torno da cidade, Nathanael e Eudésia ressaltaram de forma poética os caminhos de beleza naturais de Serraria e seu entorno.
As palmeiras, como os engenhos, são símbolos da região. Dos antigos engenhos bolandeiras às moendas a diesel e depois a eletricidade, fizeram Serraria se destacar na região com a produção de açúcar mascavo, rapadura e cachaça.
Destaco com uma ponta de orgulho o que disseram no livro Paraíba – Muito Além do Sol e do Mar sobre manha cidade, onde se vivencia “trilhas leves, caminhos rurais e mirantes naturais”. Muito além do Mar e perto do Sol, o silêncio na natureza, o aceno das palmeiras, os caminhos estreitos e os riachos com água cristalina são poesia de Serraria.
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