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Estevam Dedalus é sociólogo, doutor em Ciências Sociais, professor da UEPB, músico e compositor. [email protected]

   Comer os mortos: o ritual funerário dos Wari

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publicado em 21/02/2026 ás 17h51

Estevam Dedalus

“O mundo é mágico, as pessoas não morrem, ficam encantadas” – dizia Guimarães Rosa. Entre os indígenas Wari (nós em português), também conhecidos como Pakaa Nova, as pessoas morriam e até viravam comida. A morte era um acontecimento público que mobilizava a sociedade por inteiro, numa espécie de fato social total maussiano. Não existia a possibilidade de uma morte anônima.

Quando um Wari morria toda aldeia era afetada. Os seus parentes mais próximos, consanguíneos, se responsabilizavam pela organização do funeral e por chorar o morto; os mais distantes, os cognatos, ficavam incumbidos da tarefa de comê-lo. Os Wari são conhecidos por cantarem para espantar o sofrimento e homenagear o defunto. Uma música de melodia única, mas com diferentes texturas e variações de letras criadas espontaneamente e entrelaçadas pelos cantantes, como se cosessem um tricô para expressar seus sentimentos de afeição por quem então se foi.

Durante um tempo, os Wari realizaram um ritual de canibalismo funerário que seria extinto depois de um processo de pacificação entre as comunidades indígenas. Para ficar mais claro: quando alguém morria, dois jovens eram encarregados de avisar os parentes distantes do ocorrido. Pela tradição, não era permitido que o corpo fosse cortado e assado antes de sua chegada. Como morassem longe, isso sempre demorava para acontecer, o que significava que o corpo apodrecia antes do início do ritual fúnebre.

Uma pessoa ficava encarregada de cortar o cadáver, usando um objeto extremamente cortante feito de bambu. Ato contínuo: tirava-se os órgão internos do cadáver. Fígado e coração eram enrolados nas mesmas folhas em que se preparava pamonhas e peixes. Atirava-se os órgãos genitais e intestinos no fogo, destino semelhante que recebiam os cabelos e as unhas. Cabeça, tronco e membros eram separados para serem assados. Praticamente tudo era consumido. O que incluía as vísceras, os miolos dos crânios e os ossos – que costumavam ser triturados e comidos com mel. Era proibido ao cortador pôr suas mãos sujas de sangue na boca. Acreditava-se que, caso isso ocorresse, uma onça poderia comê-lo como punição.

A antropóloga Aparecida Vilaça, que escreveu a etnografia que serviu de base para esse texto, nos conta que “parentes próximos costumavam se esfregar no cadáver para que o líquido que dele escorria não caísse no chão”. Demonstrações de pesar e desespero públicos podiam ser vistas durante o ritual, como a tentativa de pessoas de se atirarem no fogo. O corpo só era servido depois de cozido. Tinha que ser desfiado em pequenos pedaços, que necessariamente deviam ser comidos com parcimônia, sem demonstração de alegria, como mandava a etiqueta do acontecimento. Usava-se pequenos pauzinhos de madeira como talher. Havia situações em que pessoas quebravam as expectativas morais e emotivas do grupo ameaçando o ritual, o que era seguido de repreensão.

Um fato intrigante era que os fetos abortados não podiam ser comidos nem chorados. Segundo os indígenas, eles já nasceram podres. Bebês, no geral, não eram comidos, apenas chorados, desde que já tivessem mamado. As crianças eram comidas, mas de acordo com um rito que seguia regras diferentes. O processo era mais rápido, o que acabava evitando o apodrecimento. Os Wari diziam que não sentiam tristeza em relação aos bebês que já nasceram mortos. Ainda não tinham se transformados em pessoas.

Aparecida Vilaça argumenta que os Wari operaram uma descaracterização da identidade cadáver/presa. O canibalismo funerário estabeleceu outro tipo de relação no consumo de carne, na medida em que criou um conjunto de regras que delimitaram como preparar, quem e como se poderia comer o alimento. O fato da carne assada estar podre era importante para a exigência que o ato fúnebre de se alimentar não fosse uma experiência em si prazerosa. Afinal, não se estava comendo um animal, mas um parente.

Para os Wari, o corpo comido passava por um duplo cozimento. O primeiro era de ordem natural, isto é, a própria putrefação. Aquilo que o antropólogo Levi-Strauss chamava de “cozinha natural”. O segundo, a “cozinha cultural”, como resultado do uso do fogo. Isso criaria uma distinção importante: um urubu que se alimentasse de carne humana, por exemplo, só conseguiria experimentar o seu cozimento natural; enquanto uma onça que comesse a carne humana fresca, por sua vez, faria isso sem passar pelos processos de cozimento. Só os corpos humanos, na visão dos Wari, deviam ser comidos depois das duas cocções. Aparecida Vilaça diz que os indígenas creem que seja necessário que o corpo do morto desapareça pelo fogo ou pela alimentação, para que seu espírito consiga chegar ao seu destino.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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