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Francisco Leite Duarte é advogado tributarista, auditor-fiscal da Receita Federal (aposentado), professor de Direito Tributário e Administrativo na Universidade Estadual da Paraíba, doutor em direitos humanos e desenvolvimento. Na Literatura, publicou os romances “A vovó é louca” e “O Pequeno Davi”, uma coletânea de contos chamada “Crimes de agosto”, um livro de memórias (“Os longos olhos da espera”), e dois livros de crônicas.

Passinha

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publicado em 20/02/2026 ás 12h50

Hoje, eu queria escrever sobre Passinha. As criaturas que a divindade cria apenas se diluem por aí cantando suas loas, mostrando ao universo como ocuparam o tempo para povoar a vida, vida em abundância.

92 anos, 22 filhos, 43. netos, 52 bisnetos, 2 tataranetos. Era como essas reticências silenciosas da existência. Sempre que um filho pedia um prato de amor, ela os conduzia a um sorriso resignado. Na medida do impossível, entregou-se à uma responsabilidade hercúlea, a grande mãe que não deixa pelo caminho os amores da sua vida.

Que honra! Era minha prima, casada com Zé Leite, outro primo meu. Na adolescência, eu vivia zanzando entre a casa da minha irmã Amélia e a casa de Passinha. Também pudera, tinha tanta gente naquela casa que era impossível não encontrar alguém para brincar.

Em passinha, nem sempre o tempo cruzou sua sina em calmaria. Decompunha-se na entropia que rodeia a vida, esgarçava a paz, expunha dores. Passinha era mulher guerreira, chamada resiliência. Passeava sua força nos olhos dos seus filhos, pois o futuro que neles antevia amenizava as suas dores.

E assim, em um tempo em que as florações da vida só possuíam tempo para moer o milho, Passinha haveria de fazê-lo pacientemente; em um tempo em que o destempero das carências básicas era manifesto, Passinha descascava as vargens de feijão verde, um sorriso farto, pelo inverno bom, afinal se os filhos estão de barrigas cheias, as mães são regozijo e agradecimento. As terras do açude velho que o digam.

E mais: catar o feijão, que era pouco; buscar os gravetos para alimentar a trempe no velho fogão de lenha; pôr a lata d’agua na cabeça e encher os potes que se esvaziavam em segundos, aperreados do juízo; abrir um sorriso grande e sereno, ao abraçar os filhos, pois só esse amor se estende no tempo para amparar as boas velhices.

Enfim, não há adjetivos para qualificar uma mulher do interior, do alto sertão da Paraíba, em um tempo em que todas as carências da vida eram proparoxítonas, por ela vencidas com galhardia. Palavra alguma pode representar esses seres que não morrem. Passinha não morreu. Deus não permitiria. Paz, minha querida prima. Agora, o mundo é todo seu. É só voar!

@professorchicoleite

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

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